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quinta-feira, 9 de junho de 2022

Mecanismos de agregação comunitária

Albergaria tem assistido, impávida e indiferente à destruição dos seus espaços de proximidade comunitária, ao desmazelo dos seus equipamentos de convergência. Os poderes instituídos ainda não compreenderam que é preciso reconstruir as comunidades, pois em Albergaria atingiram-se níveis perigosos de voracidade autofágica, que estão a cavar a sua desagregacão social. Quem pode e manda ainda não viu que é urgente e vital dinamizar e reinventar os mecanismos de agregação comunitária. Saberão eles, ao menos, o que é isso? 

 Mário Jorge do Lemos Pinto(director do Jornal de Albergaria) Crónica publicada na edição de 11 de Maio de 1999.     

terça-feira, 10 de novembro de 2020

A necessária missão da Imprensa Local

No dia 3 de Maio de 2014 participei, na qualidade de director do Jornal de Albergaria durante 18 anos (1993-2011), numa mesa redonda, realizada no âmbito da exposição comemorativa dos 150 Anos de Imprensa Local no Concelho de Albergaria, a decorrer na Biblioteca Municipal.

A exposição é um acontecimento imperdível para os albergarienses, que poderão visitar os cabeçalhos e algumas páginas dos jornais que ao longo dos decénios aqui se foram publicando. É sobretudo uma oportunidade para, certamente com alguma surpresa, se verificar como era pujante a intervenção cívica dos cidadãos em épocas recuadas.


Do muito que de importante foi dito nessa mesa redonda, e do longo rosário de dificuldades, em confronto com a profusão de títulos que já se publicaram, ficou a apreensão pelo futuro da imprensa local, e concretamente da imprensa local em Albergaria. No fim de contas, que futuro para a nossa imprensa local?

Importa precisar que um jornal local não é um jornal que se “faz” e se vende numa localidade: ele é “local” em atenção ao seu específico conteúdo, predominantemente virado para os factos e pessoas da localidade que é o seu espaço físico e pessoal de observação.

JORNAL E PÚBLICO LEITOR

A imprensa local pressupõe um binómio incindível: um jornal e um público leitor. Um jornal só existe se houver quem o leia; um público leitor só é leitor se tiver um jornal que lhe interesse ler.

A questão que se coloca terá necessariamente de ser esta: o jornal local surge, porque já há um público para ele; ou o público será leitor, se houver um jornal local que o atraia?

Antigamente, e apesar das elevadas taxas de analfabetismo, em qualquer localidade havia um público leitor para as notícias que lhe importavam mais de perto. A inexistência de outros meios de comunicação, a coesão das comunidades, a importância, elevada, que os pequenos/grandes acontecimentos significavam para as pessoas, a necessidade afectiva dos que emigravam de saberem das coisas da sua terra e dos seus, a pontificação de líderes de opinião (licenciados, professores, proprietários, comerciantes), políticos (os caciques) e não só, intervindo activamente nos assuntos comunitários – eram ingredientes óptimos para que os jornais locais surgissem e proliferassem.

Havia, naturalmente, um público leitor propício a receber o jornal, a “consumir”. E os jornais surgiam, em épocas em que certamente até seria mais difícil conceber a sua existência, considerando a logística da sua composição tipográfica, as dificuldades de comunicação, a censura.

Apesar dos avanços tecnológicos e da informática, hoje as coisas não são assim. São piores.

Dada a frenética mobilidade populacional, com os caudais de pessoas que tão depressa vêm residir em Albergaria (e nas outras localidades é o mesmo), como daqui saem, as comunidades estão desestruturadas e desenraizadas. As pessoas estão cada vez mais de passagem, sem chegarem a criar laços afectivos profundos com uma localidade. Infelizmente, Albergaria derrapa perigosamente para ser uma localidade “de-onde-não-se-é”, ou seja, corre-se o risco de ser uma terra cujos habitantes estão de passagem, sem que alguma vez cheguem a criar raízes.

Assim sendo (ou quando assim for), diminuirá, abaixo do mínimo de subsistência, o público que se interesse pela história de Albergaria, pelos

seus antigos, pelas suas tradições ou costumes, pelos seus problemas, pelo seu quotidiano e, pior que isso, pelo seu futuro. E deixará de haver massa crítica que consuma e suporte um jornal local.

O “FAZER-PARTE-DE”

Só que isso é muito perigoso. A desagregação comunitária é um risco imenso e de consequências graves. É, desde logo, a própria negação da sociabilidade, pois as pessoas vivem em comunidade, e é em comunidade que se efectiva a sua dimensão primordial de ser social, de ‘homo gregarius’, enquanto manifestação da própria dignidade da pessoa humana. Sem comunidade, sem a consciência de pertença a um grupo, a pessoa estiola intelectualmente e afectivamente. Acresce que a sua consciência de pertença, de “fazer-parte-de” é um pressuposto básico da própria democracia, como modo de governo da coisa pública, sobretudo na sua configuração mais exigente de democracia participativa, e portanto da sua realização enquanto ‘homo politicus’.

É por isso que a sociedade só se realiza plena e democraticamente desde que os seus elementos participem activamente no seu fluir histórico. Mas para participarem, é necessário que tenham a consciência de a integrar, de pertença.

Ora, qualquer intenção de inclusão, de “fazer-parte-de”, fracassará se não houver o conhecimento do todo social, na sua dimensão histórica e fenomenológica. E aí a imprensa local desempenha um papel ingente, revelando o que foi, discutindo o que é, projectando o que será.

É por esta ordem de razões que a subsistência da imprensa local é um desígnio de natureza pública, isto é, de interesse público, que não pode ser deixado ao alvedrio das regras de mercado, de ser ou não rentável ou sustentável. Deve ser apoiada pela sociedade politicamente organizada, porque (por paradoxal que seja) só assim a imprensa local será livre e cumprirá a sua função de “integrador comunitário”.

E portanto, ao contrário do que acontecia antigamente, em que era o público que fomentava os jornais locais, bem me parece que hoje o sentido tem de ser outro: é o jornal local que, com a sua qualidade, criará o público leitor, contribuindo positivamente para a coesão da comunidade. Mas para ter a necessária qualidade, o jornal tem de ser persistente, o que não é compatível com regras de mercado, de estreita e redutora contabilidade de receitas e despesas. Tem de ser apoiado, porque é do interesse público que se trata.

Mário Jorge Lemos Pinto, Correio de Albergaria, 14/05/2014

https://arquivo.pt/wayback/20150912105330/http://www.correiodealbergaria.pt/?p=1184

http://jornais-aav.blogspot.com/2015/09/2014-artigo-sobre-imprensa-local.html

Foi o único director na 2ª série do Jornal de Albergaria que durou 18 anos. Curiosamente verificou-se no último ano o desaparecimento do Correio de Albergaria mas mantém-se o Jornal de Albergaria que reapareceu, na sua 3ª série, em 2018.

https://jornaldealbergaria.pt/pedido-de-contacto/


segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Regueifa de canela

Agora que tanto se fala (e ainda bem!) da regueifa de canela de Albergaria, dou aqui público testemunho que a do fabrico do Élio Dinis, do Nobrijo, Branca, de que sou comprador, há mais de dez anos, é excelente.

Sempre a compramos no mercado da Costa Nova, nas manhãs de sábado ou domingo, quando lá vamos, ao peixe. E é a melhor altura de a comprar, para se comer à sobremesa do almoço, quando a sua textura, sabor e aroma estão mais refinados.

Então, é assim.

Quando lá for, não peça “uma” regueifa: peça, sim, “aquela” regueifa. Ou seja, escolha-a primeiro, com o olhar, na bancada. Escolha a que estiver mais cozida, e portanto mais castanha e com muitos “olhos” e mais negros. Depois de indicar “aquela” regueifa, a escolha ainda não está completada: observe a parte de baixo, que também deve estar escura, entre o castanho escuro e a cor de cinza. Daí que o processo possa demorar o seu tempo, mas pode crer que o Élio Dinis ou as meninas que estão no balcão terão a necessária paciência, pois identificarão imediatamente que é um conhecedor do assunto, a quem se deve corresponder com solicitude. De um lado, quem cozinha com arte; do outro, quem sabe o que quer comer. E depois, pode ser que os espanhóis que andam por lá também aprendam alguma coisa.

COM VAGAR

Feita a compra e pago o ridículo preço de 1,25€ pela regueifa, tenha cuidado em não a amassar dentro do saco. Por isso, se entretanto também comprou um saco de suspiros, ou de bolos de gema, ou um folar (ou tudo junto, o que está longe de ser um exagero, pois dá para oferecer aos filhos e aos pais) tenha cuidado para não colocar tudo dentro do saco, a esmo: separe os artigos com cuidado.

Agora, não tenha pressa em começar a comer a regueifa, pois se o fizer arrisca-se a não ter sobremesa. Guarde-a na mala do carro e traga-a direitinha para casa.

Depois dos preliminares prandiais de um almoço de sábado ou domingo, que imagino que sejam mais demorados que o costume, é chegado o momento de atacar a regueifa. Tenha logo em atenção que se trata de um acto comunitário, familiar. O exemplar vem para a mesa, inteiro, e a família ou os amigos estão cerimoniosamente expectantes. O produto merece-o. Vai começar o segundo momento da sua digressão gustativa, pois que o primeiro foi a escolha.

E pergunto eu: sabe como se come a regueifa? Digo-lhe já que há uma regra de oiro: nada de faca! A regueifa não pode ser cortada, mas sim esgaçada, o mais delicadamente possível, com as pontas dos dedos, para não a asfixiar. Cada conviva retira o seu pedaço de regueifa, esgaçando-o na horizontal e coloca-o no seu pratinho. E pode então começar, “descascando”, ou seja, retirando a crosta de cima, pelos “olhos”, que não são mais que bolhas de massa que cozeram e ficaram enfolipadas) e vai comendo. As pequenas hóstias castanhas, quebradiças, são uma delícia! E por isso já percebeu por que a regueifa deve estar bem cozida, pois só assim obterá uma crosta consistente e levemente quebradiça, às vezes crocante.

UMA UNIÃO PARA A VIDA!

Comida a parte cima do seu naco de regueifa, passa à parte de baixo, que é rugosa, estriada. Vai arrancando essas estrias de pão, como se estivesse a desfiar um pedaço de bacalhau – se a crosta foi saborosa, a côdea, comida em lascas, é ainda melhor. Faça por as lascas saírem rapadas, sem miolo, porque este vai a seguir. Na sua mão vai por fim ficar então o que restou do pedaço de regueifa, que é o miolo. E quando o comer, logo perceberá porque lhe recomendei que tivesse cuidado no transporte do artigo e não o amassasse, e também porque lhe disse que não deve usar faca e porque deve “desconstruir” o pedaço de regueifa com cuidado e com critério. É que só assim obterá um miolo esponjoso, dúctil, leve e perfumado. Comer aquele bocado final de regueifa, o miolo, é o culminar de sensações gustativas de eleição, e que só um produto único e de extraordinária qualidade como é a regueifa de Albergaria lhe pode proporcionar.

Já agora, ela vai com qualquer bebida, até mesmo a água. Mas a regueifa com um cálice de Vinho do Porto – é uma união para a vida!

Mário Jorge lemos Pinto / Correio de Albergaria, 28/05/2014

https://arquivo.pt/wayback/20150912105211/http://www.correiodealbergaria.pt/?p=1268


segunda-feira, 20 de julho de 2020

Na Esquina


ACABAR COM OS VEREADORES A TEMPO INTEIRO

Todas as Câmaras municipais têm vereadores a tempo inteiro, adjuntos e secretários.

O número de uns e de outros varia consoante a dimensão da autarquia. Admito que, em média, a coisa seja como em Albergaria: dois vereadores a tempo inteiro, um adjunto, um(a) secretário(a). Câmaras haverá com mais, outras com menos. Por isso, é uma média.

Quanto se gasta com este staff?

Contas por alto, admitamos que, em gastos directos, sejam uns 8.000€/mês (brutos) para os quatro, ou seja, 112.000€/ano.

Temos 308 municípios, e é só multiplicar: 34.496.000€/ano.

Isto, em gastos directos. Mas há os gastos indirectos: automóveis, telemóveis, consumíveis, desperdícios, etc.

Quanto vale isto? Não sei, mas admitamos mais 20%. Um total, portanto, superior a 41 milhões de euros, por ano.

E cabe perguntar: que faz esta gente? Ou melhor: que faz esta gente, que os funcionários das câmaras não possam, ou não saibam fazer?

Os funcionários das câmaras são trabalhadores experimentados, com provas dadas, habilitações adequadas, com quem o Estado (com os nossos impostos) já gastou na sua preparação. São partidariamente isentos, dedicados (ou pelo menos obrigados) ao serviço público. Estão vinculados à lei e respondem, perante os cidadãos e os tribunais, pelo zelo e diligência com que cumprem as suas funções.

Já os vereadores permanentes, adjuntos e secretários são o pessoal partidário que constitui “o gabinete da presidência”, apenas vinculados ao presidente, trabalhando para a sua manutenção no poder, cuidando das respectivas clientelas político-partidárias. E, como agora se vê por todo o lado, são a estrutura que prepara a recandidatura dos actuais presidentes, ou que suporta a candidatura de um dos vereadores.

A preparação desta gente, em termos de administração autárquica, é em geral nula: apenas se lhes exige fidelidade partidária e voluntarismo.

Sendo assim, porquê, nos tempos de contenção em que vivemos, a existência destes gabinetes, suportados pelos impostos dos portugueses, quando é certo que os funcionários camarários cumpririam bem melhor as suas funções? Pois, de duas, uma: ou as tarefas desse pessoal são administração autárquica, e então lá estão os funcionários que estão mais preparados para as desempenhar. Ou as suas tarefas são de natureza político-partidária, e então não têm que ser pagos pelo orçamento da autarquia!

Seria preferível voltar aos tempos antigos, em que ser vereador era um serviço público, sem outra remuneração que uma senha de presença nas respectivas reuniões, e em que o trabalho técnico era desempenhado pelos funcionários, que são preparados para isso.

E assim se poupavam uns milhões de euros, muito preferível a que o Governo os vá buscar despedindo funcionários públicos, ou cortando as pensões de reforma.

FB

ALBERGARIA SEM VIDA

Faz agora um ano que publiquei no Jornal de Albergaria um artigo sobre o antigo Girassol, e que agora é o Praça Pública, ali entre os Paços do Concelho e a Casa da Justiça.   Fiz-lhe um pouco da sua história, enalteci o espaço de convivialidade que tão bem desempenhou, lamentei o seu desdouro e censurei o marasmo em que agora se atolou.

Um ano decorrido, tudo continua na mesma, ou pior. O edifício mantém-se hostil à ampla frequência pública que antes tinha, e por isso, ao começo da noite, o centro da vila (não me habituo a chamar-lhe cidade) fica deserto, inóspito, esvaindo-se de pessoas que, como sombras, se vão afastando.

Escrevi mais ou menos isto (aproveitando agora um título emprestado):

Em 1973, o presidente da Câmara de Albergaria, José Nunes Alves, imaginou a instalação de um café na praça em frente aos Paços do Concelho. Nessa altura ainda não existia o edifício do tribunal, nem a actual Alameda (pastelaria e escritórios). Havia apenas o terreno amplo, com ameixoeiras e diospiros. Ali, um café seria um excelente espaço de convivialidade e de movimentação cívica e comunitária, criando um complemento importante ao centro cívico da vila. Uma espécie de sala de estar, categorizada pela localização e pela vizinhança dos Paços do Concelho (onde, além da câmara, funcionavam os serviços municipalizados, a tesouraria e repartição de finanças, o tribunal e as conservatórias) e pelo restaurante da Casa Alameda, que nessa altura era um referencial turístico da vila (talvez o único).

Alder Lemos Lopes interessou-se pela ideia e construiu ali o café, em regime de contrato de concessão com a câmara municipal. O projecto, da autoria do arquitecto Gigante, era básico, como convinha: um edifício de um piso, circular, totalmente envidraçado, excepto o lado dos serviços (arrecadação, cozinha e WC), virado para o cinema. À frente, para os Paços do Concelho, ficava a esplanada sob as ameixoeiras. O estacionamento era farto e à vontade. De tão simples, e aberto para todos os lados, com largas e despretensiosas vidraças, mobiliário moderno e simples, o edifício era atraente e aprazível. Inaugurado como café e snack-bar, o Girassol (assim foi designado) logo se tornou um local de eleição para o convívio e o encontro dos albergarienses.

As pessoas visitavam-no e frequentavam-no, de manhã até à meia noite (no verão até era mais), sete dias por semana, fosse para a conversa de grupos, fosse para a leitura de um jornal ou um livro, fosse apenas para a contemplação de quem passava nas ruas, num “dolce fare niente” que é também um dos prazeres da vida. O sol jorrava intensamente, para satisfação dos mais idosos que ali espreguiçavam na cavaqueira do futebol e da política.

Era também o local de encontro de quem vinha de fora, porque era uma referência simples e directa: “encontramo-nos no café em frente à câmara”.

Quando em 1980 foi inaugurado o edifício do tribunal, das conservatórias e do notariado, assim completando o centro cívico, o café ganhou maior importância, como local de passagem quase obrigatório das pessoas que acediam a estes serviços públicos.

O Girassol tinha os seus clientes fiéis: mesmo quem almoçava na Casa Alameda, vinha ali tomar o café. Clientes eram praticamente todos os albergarienses que cultivavam o convívio e o “sair de casa”. O espaço era amplo, a esplanada um amplo palco estratégico para quem se entretinha a ver quem passava. Ponto comum a todo o tipo de utilizações, era um espaço óptimo de relações humanas.

O café Girassol acabou no início da década de noventa: foi demolido e substituído por uma outra construção, onde se pretendia manter o café, com a nova valência de restaurante.

Mas o projecto foi claramente infeliz. Não se percebeu que aquilo que fazia a beleza do Girassol e que o tornava um local por excelência de convivialidade era a sua abertura ao exterior, as suas vidraças – e o que foi construído em seu lugar foi exactamente o oposto. Nasceu um edifício bisonho, fechado, com uns requebros classicistas que o tornam sisudo e pesadão, com um arremedo de esplanada para o lado da estação, mas em flagrante conflito com um lago e uma queda de água que, com um bocado de vento, salpica os circundantes. Por dentro, o edifício é claustrofóbico, e quem lá se senta, ou olha para a televisão, ou para as outras mesas: a visão ao exterior, para os Paços do Concelho, para o tribunal, para o jardim, enfim, o “ver quem passa” torna-se praticamente impossível, porque agora, em vez de largas vidraças, passou a haver janelos e postigos, frestas e paredes, a despensa e a cozinha!

O edifício que sucedeu ao excelente Girassol perdeu a funcionalidade natural de sala de estar do centro da vila. E a sua existência lá se veio arrastando penosamente, por mais vinte anos, com gerências desinteressantes e frequência minguada, toda a gente lamentando o desaparecimento do antigo edifício.

Mas se isso era mau, pelo muito que se perdia de rossio e praça de estar de Albergaria (…), pior é agora a utilização que dele estão a fazer.

Redenominado de Praça Pública, ele é hoje a negação do que deve ser um edifício de matriz pública, num local central!

As poucas janelas ou postigos que ainda tinha estão agora praticamente tapados, certamente impedindo que se veja de fora para dentro, mas também a inversa.

Depois, o seu funcionamento é desadequado à sua geratriz de local de convívio e de estar: o “bar”, ou discoteca têm por natureza uma frequência redutora e sectorial, que está nos antípodas da frequência heterogénea dos que apenas pretendem ler o jornal, falar, ou encontrar-se com alguém, ou simplesmente “estar”, no remanso dos dias que passam. Hoje, aquele já não é um local para os albergarienses, novos ou velhos, homens ou mulheres: é um local para uma franja de freguesia muito estreita, provavelmente muito nocturna.

Não se pode consentir em dar esse destino a um espaço central e municipal, que com tanto êxito e eficácia já desempenhou um excelente papel de potenciador da convivialidade dos albergarienses.

O que espanta, é que estas incidências ocorram aparentemente sem qualquer reacção ou oposição da câmara municipal, que é, digamos, a “dona” do edifício, e que assiste, impávida, à subversão da sua finalidade. É um estranho conceito de “interesse público” este, da câmara municipal, que aceita a instalação de semelhante equipamento nas suas “barbas”, pois não é crível que ignore a nova  prática comercial que vem sendo ali prosseguida.

O edifício é um bem municipal, pertence à autarquia. A sua exploração foi cedida em regime de concessão, ou pelo menos de arrendamento, a que necessariamente há-de presidir o interesse público do seu funcionamento. E não é isso que acontece.

FB 13/01/2012

AS ELEIÇÕES NA MISERICÓRDIA E JOÃO AGOSTINHO: UM AJUSTE DE CONTAS FRUSTRADO

As eleições para os corpos gerentes da Misericórdia de Albergaria decorreram ontem com uma participação record de 442 eleitores. Venceu a lista A (integrada quase totalmente pelos actuais dirigentes) com 318 votos, contra 119 votos da lista B. Os associados expressaram, com larga maioria, que os actuais dirigentes devem continuar por mais um mandato.

Rectificação da pontuação: "Todos vencedores? Não. Houve um único derrotado: João Agostinho Pereira, presidente da Câmara de Albergaria".

FB 11/11/2011

FALTAM ESPAÇOS PÚBLICOS VERDES

O tempo e os dias ainda convidam a caminhadas e passeios de bicicleta, ao fim do dia ou ao fim de semana. Mas em Albergaria não temos espaços para o fazer com prazer e em segurança. Os passeios são irregulares, as estradas são perigosas, por causa do trânsito. Não é compreensível que as terras vizinhas (Estarreja, Murtosa, Ovar, Águeda, Aveiro, Sever...) tenham ciclopistas e trilhos pedonais devidamente pavimentados, sinalizados e protegidos, e em Albergaria não exista um único percurso! Aqui, as crianças e os idosos andarem de bicicleta pelas ruas é uma aventura de desfecho imprevisível. Caminhar pelo gosto de o fazer é apanhar com os escapes dos automóveis, ou correr o risco de um atropelamento ou de um tropeção.

Os aglomerados urbanos devem ter pelo menos 9m2 de espaço público verde por habitante. Segundo esta regra, Albergaria devia ter 50.000 ou 60.000m2 de espaços públicos verdes. Mas se houver 2.000m2 já será muito.

FB 21/09/2011

Os nossos "estádios"

Vejo as obras da futura biblioteca (na praça D. Teresa) e as obras do futuro centro cultural/cine teatro Alba. Serão dois edifícios enormes, totalmente fora de escala.

Quanto se gastou nas demolições? Quanto se gastará nas construções? E no seu mobiliário e no seu equipamento? Quanto custará, um dia, a manutenção/conservação de um e de outro? E o seu funcionamento, com pessoal, electricidade, aquecimento, etc?

E com a crise que aí está, e que será ainda mais pesada nos próximos anos, com cortes nos orçamentos das autarquias – haverá dinheiro para tudo isso?...

Em 1997 e 2000 escrevi vários artigos no Jornal de Albergaria, em que defendi que o centro cultural e a biblioteca deviam ser um só edifício, exactamente o Cine-Teatro Alba: com obras de adaptação, claro.

Com a crise em que o País está, sem dinheiro para nada, estou cada vez mais convencido que esta ideia estava e está certa: um só edifício para os dois equipamentos era a solução. O dois edifícios, o seu mobiliário (e a sua manutenção) vão deixar as finanças municipais na penúria.

Ao Cine Teatro chamam-lhe “o monstro”. Do mal, o menos: o pior é se os dois edifícios, a biblioteca e o cine teatro, virão a ser para Albergaria o que os Estádios de futebol são para Aveiro, Leiria, Algarve, etc: sorvedouros de dinheiro, na construção e na manutenção.

As megalomanias saem caras. O óptimo é inimigo do bom.

FB 20/08/2011

Mário Jorge Lemos Pinto
copy+paste do facebook - FB (textos de 2011, 2012, )

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Alba

ALBA é A MARCA de referência de Albergaria-a-Velha. Já uma vez escrevi que Albergaria foi conhecida, por todo o País e durante décadas, pela Casa Alameda, pelo Colégio de Albergaria e pela Fábrica Alba - pela/o ALBA.

Por isso, aplaudo tudo o que de bom seja feito para restituir a marca ALBA ao seu antigo esplendor, revigorando os seus produtos.

Mas pela mesma razão que aplaudo isso e felicito o Pedro Martins Pereira, também lamento, e profundamente, a utilização abusiva, abastardada, que outros fazem do nome ALBA. SE já não bastassem mercados de mercearias ALBA, temos agora, mesmo à entrada Clube de Albergaria, na antiga Auto Reparadora, em letras garrafais, um "ALBA SHOPING" a feirar bugigangas chinesas! Defender o prestígio do nome ALBA é não apenas fazer renascer os seus produtos, mas também impedir os abastardamentos abusivos que fazem dele. Há leis que protegem o nome, a marca, a insígnia.

Mário Jorge Lemos Pinto, 28/11/2013

Nota do blog: Em alguns casos funciona apenas como mais uma associação a Albergaria e quase não há uma ligação directa com as Fábricas Metalúrgica Alba mas deveria haver mais cuidado quando é escolhida uma denominação semelhante.

Albimóveis, Albicampo, Albicalor, ...

Albamercado, Alba Shopping, Escola Condução Alba, Bar Flor Alba, vidraria Vitro Alba,  ...

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Mário Jorge Lemos Pinto

O Dr. Mário Jorge Lemos Pinto é licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (17 de Julho de 1975) e Mestre em Direito na área de Ciências Jurídico-Políticas (Opção de Direito Administrativo), pela Universidade Católica Portuguesa, em provas públicas de 9 de Março de 2007.

Foi director do Jornal de Albergaria desde a sua fundação em 1993 até 2011.

Em 2009 foi lançado em livro a sua tese de mestrado (2006) "Impugnação de Normas e Ilegalidade por Omissão no Contencioso Administrativo Português".

Obras Publicadas:

• Código das Expropriações Anotado, Livraria Almedina, 1984.
• Noções de Administração Pública, em dois volumes, destinada ao
ensino secundário, Porto Editora, 1981,1991 (em co-autoria).
• Impugnação de Normas e Ilegalidade por Omissão no Contencioso
Administrativo Português, 2009.

Dados Biográficos:

- Fiz a instrução primária em Albergaria-a-Velha, entre 1959 e 1963.
- Os sete anos do liceu foram no Colégio de Albergaria, entre 1963 e 1970.
- A licenciatura em Direito foi na Universidade de Coimbra, entre 1970 e 1975.

- Dei aulas na Secundária de Albergaria (primeiro ainda como secção da Escola Comercial e Industrial de Oliveira de Azeméis) entre 1973 e 1975.
- Entre Janeiro de 1976 e Maio de 1977 cumpri o serviço militar na Repartição do Gabinete do Chefe do Estado-Maior do Exército.
- Voltei a dar aulas, até 1980, na Secundária e no Colégio de Albergaria.
- Ao todo, leccionei História, Direito, Direito Comercial, Economia, Administração Pública, Filosofia.

- Entretanto concluí o estágio de advocacia e comecei a advogar, a partir de Junho de 1978, actividade que continuo a exercer, sempre em Albergaria.

- Entre 2003 e 2007 concluí o Mestrado em Ciências Jurídico-Políticas (Direito Administrativo) na Universidade Católica Portuguesa.
Nesse âmbito, apresentei e defendi a tese “Impugnação de Normas e Ilegalidade por Omissão no Contencioso Administrativo”, que está publicada.
- Antes, já tinha escrito e publicado outros dois trabalhos: “Noções de Administração Pública”, 1º e 2º volumes, e “Código das Expropriações. Anotado”.
- Fui membro da Assembleia Municipal de Albergaria e vereador na Câmara Municipal.

Neste percurso escolar e profissional, tenho orgulho e recordo muitos professores: na instrução primária (Lídia Vinhas Coelho; Carlos Alberto Silva e esposa, Profª Conceição), no Colégio (Eduardo Marques, Natália Pereira, Pe Moisés, Humberto Marques, Armando Marques, Edmundo Pereira - todos já falecidos - e Marina Ramos Temudo) , na Faculdade de Direito (Sebastião Cruz, Mota Pinto, Gomes Canotilho, Rogério Soares, Rui Alarcão, António Hespanha, Vital Moreira, Manuel Porto, Lucas Pires, Pereira Coelho, Teixeira Ribeiro, Avelãs Nunes…), no Mestrado (Mário Aroso de Almeida, Manuel Afonso Vaz, Brandão Proença).

Recordo o meu patrono, na advocacia, Manuel Homem Ferreira, que me ensinou muita coisa importante na vida.

Recordo Alberto Soares Pereira, subdirector da Secção de Albergaria da Escola Comercial e Industrial de Oliveira de Azeméis, que em 1973 (tinha eu 20 anos) foi o meu primeiro “chefe” e me confiou a responsabilidade de ensinar várias turmas.

Recordo o presidente da Câmara Municipal de Albergaria-a-Velha, José Nunes Alves, que confiou nas minhas capacidades, como advogado da Câmara, sendo eu ainda um jovem estagiário.

https://www.facebook.com/mariojorge.lemospinto


Albergaria-a-Velha: Vogal da Assembleia renuncia por causa de incompatibilidades

Mário Jorge Lemos Pinto, influente vogal da Assembleia Municipal (AM) de Albergaria-a-Velha renunciou ao cargo a meio do mandato, alegando «motivos profissionais». Antevê incompatibilidades no exercício da advocacia. Um caso raro nos orgãos autárquicas.

Na carta de renúncia enviada ao presidente da mesa, o ex-deputado municipal informa que decidiu interromper a participação activa no orgão fiscalizador do executivo camarário.

Os motivos prendem-se com razões de ordem profissional. Mário Jorge Lemos Pinto, advogado, entende que ao manter-se no cargo de vogal poderia incorrer, nos tempos mais próximos, em várias «incompatibilidades».

Por outro lado, quis evitar que futuramente lhe apontassem o dedo em tomadas de decisão nas quais eventualmente tivesse intervenção enquanto causídico.

«A lei não obriga mas achei por bem renunciar», explicou o também director do semanário Jornal de Albergaria.

Lemos Pinto, uma das vozes mais credíveis da oposição local dá como exemplo de incompatibilidades negociações entre a autarquia e particulares para acertar contrapartidas e indemnizações. Ao aparecer como conselheiro jurídico do particular, na AM teria de defender os interesses do município. Antevendo «conflitos sérios», o advogado preferiu renunciar.

Noticias de Aveiro, 21/10/1998

sábado, 30 de junho de 2018

Monumento aos Combatentes do Ultramar

MONUMENTO AOS COMBATENTES DA GUERRA DO ULTRAMAR – 1961/1974

A Câmara Municipal e a Junta de Freguesia de Albergaria-a-Velha inauguraram um monumento aos Combatentes da Guerra da Ultramar. Louvo e admiro a iniciativa.

Expressões como “combatentes da guerra” e “ultramar” ainda são incómodas, apesar de decorridos mais de 40 anos após o fim da guerra.

Desde então, o soldado português, que combateu em África, passou a ser uma figura algo subalternizada na nossa mitologia, sem lugar no salão, porque associado ao regime “colonialista”. A historiografia politicamente correcta e bem pensante olhava (e fazia-nos olhar) o militar como alguém que, impreparado, se deixou tornar no braço armado do regime “fascista-colonialista”. Digno de “admiração” era o desertor ou o refractário, que fugiu à guerra colonial e foi para a Suíça, França, Suécia. O “sacrifício” elogiado não era tanto o do soldado, até porque pouco esclarecido e supostamente com pouca sensibilidade, mas sim o do desertor, que se recusou a ir para a guerra – e foi para o estrangeiro. Embora aquele desse o peito às balas – em certos meios bem pensantes era este o “herói”.

O termo “ultramar” foi radicalmente proscrito, dadas as suas ressonâncias passadistas: ao longo deste tempo, não se ouviu muito falar no “ultramar português”, porque o correcto passou a ser “colónias”.
Sabe-se que nem todos foram desertores, ou refractários: muitos foram para a guerra, porque entendiam que era esse o seu dever, sem o questionar, ou porque convictamente conscientes que tinham de o fazer. Embora por outras razões, o Partido Comunista Português não apadrinhou a deserção, demovendo os seus militantes de o fazer.

Ninguém ia para a guerra por gosto – mas iam, que remédio!

Nunca simpatizei com os desertores, cujas justificações “políticas” sempre me pareceram outra coisa, inconfessável.

Quanto ao ultramar, sendo certo que geograficamente os territórios africanos eram mesmo “ultramar” – a verdade é que, para quem estava no “continente”, ou para quem vivia lá, o “ultramar” sempre foi entendido como uma parte da nossa História e portanto da nossa consciência colectiva.

Sem preconceitos, sem receio de ofender a historiografia oficial, mas com a desempoeirada consciência de que a Comunidade tem uma dívida para com os Combatentes da Guerra do Ultramar, os nossos autarcas de Albergaria deram, com este monumento, um corajoso exemplo de civismo e de respeito fraternal por quem foi Combatente.

Mário Jorge Lemos Pinto, 29/05/2018, facebook

https://www.facebook.com/mariojorge.lemospinto

O Município de Albergaria-a-Velha homenageou os combatentes do Ultramar do Concelho numa cerimónia que teve lugar a 27 de maio, pelas 15h00, no Cineteatro Alba.

A seguir à cerimónia no Cineteatro Alba, onde foi exibido um documentário, a Câmara Municipal  inaugurou o monumento alusivo aos combatentes. na Alameda 5 de Outubro. A obra em pedra de granito foi concebida pelo arquiteto Sérgio Azeredo.

Delfim Bismarck, Vice-presidente do Município, considera que “com esta justa homenagem, valorizamos e honramos os combatentes do Concelho de Albergaria-a-Velha que participaram neste momento importante da História de Portugal”.

A Guerra do Ultramar decorreu nas antigas províncias ultramarinas de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, tendo sido destacados 148 000 soldados portugueses para as zonas de conflito.   

CMA.

Mortos na Guerra do Ultramar

O monumento criado em memória dos Combatentes do Ultramar foi uma iniciativa da Câmara Municipal, que se entendeu ser justa. Albergaria-a-Velha era dos poucos municípios que ainda não tinha tido esta iniciativa, pelo que decidiu fazer uma homenagem pública, com a inauguração do monumento. O monumento é da autoria do escultor e Arquiteto Sérgio Azeredo, que ofereceu o projeto, porque também foi combatente no Ultramar. A sua execução teve um custo de cerca de € 5.000,00€ e a escolha do local deve-se ao facto de se tratar de um espaço nobre da cidade, com visibilidade em todas as perspectivas, com alinhamento entre o Cineteatro Alba e o edifício da Câmara Municipal.

Delfim Bismarck, Assembleia Municipal de 27/06/2018

domingo, 14 de setembro de 2014

Grupo de amigos no café

Café Leão em 02/11/1951 (foto cedida pelo Sr. Rui Castanheira ao Portal de Albergaria)


Sentados à mesa da esquerda para a direita: Mário Conde, Atanásio Ribeiro, Luís Mano, Matos, Rocha (dono do café), José Homem e Minhato.(DM) Na foto, quase ao centro, de gola alta preta e gabardina, é Orlando Bismarck, com 18 anos de idade.(DB)

Facebook Café Girassol, 31 de Julho de 2011

https://www.facebook.com/groups/237000052999189/

Atanásio Ribeiro, Gomes (Foto Gomes),Orlando Bismarck, Álvaro, Jaime Patrício, Rocha (dono do Café Leão) entre outros...


FALECEU O SR. ANDRADE

Desde que me lembro, sempre me habituei a ver o sr. Andrade num grupo de pessoas onde estava o meu Pai. Eram pessoas da Alba, mas eram sobretudo pessoas do antigo Café Leão, depois do Café Avenida e por fim do Café Napoleão (menos do Girassol).

Descontados os que eram mais novos (e que felizmente continuam por aí), eram pessoas que agora estariam pelos 90 anos, mais 5, menos 5. Hoje, o sr. Andrade tinha menos, o meu Pai teria mais. Não os nomeio todos, mas num só fôlego recordo alguns só para amostra, e pelos nomes por que os tratavam: o Marques da Silva, o Lalande, o Lima, o Mário Conde, o engenheiro Miguel, o Alberto Soares Pereira, o Rebelo, o António Augusto, o Deltinho, o Figueiredo… Mas, sendo pessoas da mesma geração, eram sobretudo um grupo de amigos, mais ou menos íntimos, que praticavam a tertúlia e o convívio à mesa do café, diariamente, várias vezes ao dia. O meu Pai faleceu há 20 anos, o sr. Andrade foi a sepultar ontem. Creio que, desse grupo de homens bons, entre os 85 e os 90 , o sr. Andrade foi o último a falecer.

Deixo aqui a minha homenagem a um homem de convívio fácil, com um apurado e sibilino sentido de humor, muito culto (tanto quanto ser-se culto é conhecer-se o mundo) e modesto. Para comigo, filho do seu colega Nestor, colega do Colégio dos seus filhos José e Manuela, o sr. Andrade teve sempre uma atitude de muita estima e consideração. Nos últimos anos não eram assim tantas as conversas que tínhamos, mas era o cumprimento, simples e amigo que trocávamos quando nos víamos. E isso chegava, para perceber a sua afectuosidade.

Sei que foi um bom Pai – este pode ser o seu elogio fúnebre. Com o seu falecimento, há uma parte muito considerável da minha memória que se encerra, em jeito de fim de capítulo. E deixa muitas saudades.

Mário Jorge Lemos Pinto, 22/07/2014 (facebook)

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Na Esquina

SPORTING - ALBA: VAIDADE DE SER DE ALBERGARIA-A-VELHA

Fomos a Alvalade ver o Sporting-Alba, e gostámos. O resultado não interessa para nada, pois o que contou foi o respeito que os profissionais do Sporting (e os milhares de espectadores) tiveram para com os amadores de Albergaria; e a dignidade destes em se baterem frente-a-frente com aqueles, todos unidos na paixão comum por uma modalidade desportiva. Foram onze de cada lado a disputar lealmente todas as jogadas. Não houve 'baile', nem houve gozo ou sobranceria: o Sporting bateu-se pelos golos, do primeiro ao último minuto do jogo, como se estivesse a jogar uma final. E festejou-os, dentro e fora do relvado, como se tivessem sido obtidos contra um Barcelona! Creio mesmo que esta foi a melhor homenagem que os profissionais anfitriões prestaram aos amadores visitantes: trataram-nos como IGUAIS, de homem para homem, de atleta para atleta! A isso, o Alba respondeu com correcção, desportivismo e com uma inexcedível entrega ao jogo. Não houve 'frangos', não houve jogadas caricatas que fizessem rir. Gostámos de estar numa bancada com centenas de sportinguistas, que, como nós, também aplaudiram o golo do Alba. E no final eram milhares, felicíssimos por terem ganho ao Alba - de Albergaria-a-Velha, terra do distrito de Aveiro.

ESCOLA SECUNDÁRIA HÁ 40 ANOS

Em Outubro de 1973 (há 40 anos...) a Secção de Albergaria-a-Velha da Escola Industrial e Comercial de Oliveira de Azeméis começou a funcionar nas casas do antigo Bairro Napoleão (na Bela Vista, ao lado do Ciclo Preparatório), que foram despejadas dos seus ocupantes (para Assilhó) e adaptadas a salas de aula. Foi um esforço e uma iniciativa importante do Presidente da Câmara Municipal de então, José Nunes Alves. Aí comecei eu a trabalhar, dando aulas de História e de Direito Comercial, aos cursos de Formação Feminina, Comércio e Mecânica, diurnos e nocturnos. Entre outros, estavam comigo também a dar aulas, Alberto Soares Pereira (que era o subdirector), Luisa Conde, Pureza Seabra, Luis Ribeiro, Olga Andrade, Alberto Gonçalves Silva, Natália Campos, António Fernandes Silva, Damião, Brites, Basilinda, padre José Maria Domingues.... Recordo por várias razões: porque estou a completar 40 anos de trabalho, ininterruptamente (incluindo serviço militar), o que já é muito tempo; porque há 40 anos que a Escola Secundária foi para o local onde hoje está; porque evoco com saudade alguns que já faleceram, e muitos dos meus alunos, com quem ainda hoje me cruzo; porque a memória do presidente José Nunes Alves e a sua obra continuam a reclamar a homenagem que lhe é devida. Sem meios, sem pessoal, sem automóveis, o presidente José Nunes Alves deixou uma obra imperecível.

QUAL A EXPLICAÇÃO PARA A DERROTA?...

Churchill tinha razão: não são as oposições que ganham as eleições; são os governos que as perdem. Há, quem, em Albergaria, tente justificar a derrota de João Agostinho nas autárquicas com o problema nacional: as pessoas, descontentes com o Governo PSD, teriam penalizado as câmaras PSD e votaram noutros partidos. Errado: se assim fosse, não se compreendia que o PSD tivesse ganho em Aveiro, em Braga, na Guarda, mantendo ainda outras câmaras. E também não se compreenderia que o PSD tivesse ganho em Angeja, Alquerubim, S. João de Loure. Os descontentes com o Governo Passos Coelho estariam numas terras, e noutras não?... A tudo acresce que, a haver reflexos do descontentamento nacional nas autárquicas, então o CDS (partido do Governo) também seria penalizado – e não foi. Logo, e sem descartar que os vencedores têm sempre o mérito de se afirmarem como alternativa credível, a explicação para a derrota de João Agostinho (o Pimenta não risca muito nestas contas, já que foi apenas um mero e acidental substituto, um duplo) terá de se encontrar cá dentro. E aqui a perplexidade é imediata: João Agostinho esteve em campanha eleitoral durante 12 anos, ininterruptamente, desde o primeiro dia em que foi presidente; nos últimos quatro anos inaugurou o cine teatro e a biblioteca, fez festivais de variedades; esteve presente em tudo quanto era festa e arraial; teve coberturas fotográficas de tudo e mais alguma coisa, desde entregas de subsídios até assinaturas de contratos; fomentou um culto da personalidade obsceno, com a afixação do seu nome em todas as placas possíveis e imaginárias; sempre aprimorou a sua imagem, nunca prescindindo do fato e gravata; refinou o seu estilo demagógico até ao enjoo, onde não faltaram as choradeiras em público …. E ainda assim perdeu! Temos um case study…

Mário Jorge Lemos Pinto
copy+paste do facebook

(o texto sobre as autárquicas está incluído no artigo publicado por MJLP no Correio de Albergaria mais recente)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Desenvolvimento - artigos Dr. Mário Jorge

O círculo vicioso da desqualificação (2000)

É nos bairros periféricos das cidades, nos seus dormitórios, nas áreas sem equipamentos e disciplina urbanística, que se identificam os maiores índices de criminalidade, cujos expoentes máximos são os ‘gangs’ de marginais, jovens e não só.

Há tempos, escrevia Nicolau Santos no Expresso (1 de Julho de 2000): "Uma das mais importantes tendências do século XXI aponta no sentido da competitividade vir a medir-se não entre países mas entre cidades. E estarão em competição não as cidades de um determinado país face às cidades de outro país, mas cada cidade em relação às outras cidades do seu país. Será uma concorrência feroz e sem tréguas, em que os presidentes das câmaras municipais terão uma importância decisiva. A sua capacidade política para conseguir o melhor para as suas cidades, garantindo boas infra-estruturas, ambiente limpo e saudável, segurança, acesso fácil a serviços de saúde, parques tecnológicos, equipamentos culturais e desportivos, será fundamental para os espaços que governam (...). Esta competição implicará que cada cidade tenderá a especializar-se em determinada área de actividade e a oferecer as melhores condições para atrair investigadores, médicos, cientistas, professores, desportistas, artistas, investidores, empresários. Serão as cidades-excelência, procuradas por nacionais e estrangeiros, por indivíduos e empresas, por serviços públicos e privados".

Tentando aplicar estes pensamentos à realidade do concelho de Albergaria, fica-nos o sabor amargo de uma angustiante desilusão, por se constatar que aqui o caminho é o oposto. Em vez de se pressentirem os sinais seguros de uma caminhada para a excelência, em termos de gestão racional e harmoniosa do espaço urbano, de concretização de um modelo de desenvolvimento equilibrado, criando mais qualidade de vida – a dura realidade é a de uma cada vez maior subalternização do concelho, de um maior afastamento perante a linha de desenvolvimento que já se identifica por todo o distrito.

No concerto dos concelhos circunvizinhos, nomeadamente dos mais poderosos, como Aveiro, Águeda e Oliveira de Azeméis, é notório o atraso de Albergaria, no que respeita não apenas aos indicadores económicos, mas sobretudo no conjunto dos itens que definem a qualidade de vida.

Por algumas vezes, tentámos suscitar o debate acerca de qual o destino de Albergaria: apenas um dormitório de mão de obra, de serviço às cidades que nos envolvem, ou um aglomerado que possa reverter a seu favor as suas próprias limitações geográficas e económicas, servindo de contraponto aos grandes centros, transformando e potenciando em qualidades e atributos a sua posição necessariamente periférica? Ser um dormitório, ou ser uma área residencial, com tudo o que aquele significa de mau e esta de bom?

O debate não é inócuo. Saber o que se pretende de Albergaria, é colocar em discussão o modelo de sociedade que se almeja, nomeadamente ao nível da gestão do seu espaço geográfico. É bom lembrar, permanentemente, que as comunidades vivem num espaço, do mesmo modo que as pessoas habitam em casas. A organização, a harmonia, o apetrechamento desse espaço é que pautam a qualidade de vida das pessoas, a sua maior ou menor felicidade. Assim como não se é feliz numa casa sem os cómodos adequados, sem os equipamentos básicos, numa casa degradada e suja – também não há comunidades prósperas em espaços desorganizados, tortuosos, sem equipamentos, sujos. A prosperidade e qualidade de uma comunidade dependem desde logo das condições e organização do território onde está radicada. E a falta de alegria e de harmonia de uma comunidade, a falta de qualidade de vida, são uma das principais causas da delinquência, da violência e da agressividade, mais evidentes na juventude.

É também por isso que é nos bairros periféricos das cidades, nos seus dormitórios, nas áreas sem equipamentos e disciplina urbanística, que se identificam os maiores índices de criminalidade, cujos expoentes máximos são os ‘gangs’ de marginais, jovens e não só. A delinquência está na razão directa da degradação urbanística e da falta de uma gestão do território atenta à integração das comunidades.

Estas pechas são, por sistema, as consequências da criação de dormitórios suburbanos, sem qualidade, sem um ordenamento adequado à integração das comunidades.
A partir daqui, a partir do momento em que uma área cresce sem uma disciplina urbanística especialmente atenta às especificidades de uma zona dormitório, então o circulo vicioso da desqualificação nunca mais pára. Se um território sofre os efeitos de um crescimento tortuoso e indisciplinado da construção, sem o paralelo aparecimento de equipamentos de convergência e de espaços de integração comunitária, ocorre um movimento de repulsão de núcleos a quem estes aspectos não agradam, e de atracção de famílias de poucos recursos e baixos índices de exigência em termos de qualidade.

São sobretudo as massas humanas que vêm do interior rural e procuram emprego nas periferias das cidades, em regra desqualificadas profissionalmente, de baixos recursos e de níveis culturais a rasar o zero. O seu grau de exigência é mínimo, satisfazem-se com pouco. E também pouco ou nada se lhes dá. Por outro lado, quem revela padrões de qualidade mais desenvolvidos acaba por se afastar, ou de nem sequer ali se estabelecer.

Degradado, pois, o território, por uma gestão inadequada e incompetente e por uma governação insensível, o dormitório é o destino natural de uma procura nada exigente, impreparada, sem recursos, proletarizada, que irá recriar a cultura de bairro.

A tendência inevitável será então de o concelho, que não se consegue opor a este movimento, vir a transformar-se na periferia das cidades que se vêm a impor pela sua qualidade.

Em Albergaria-a-Velha, os investimentos em qualidade de vida têm sido mínimos. Tirando o que é obrigatório, têm sido insignificantes os lampejos de criatividade, com vista a evitar esta suburbanização do nosso espaço.

Repare-se que uma área periférica e suburbana é sempre um espaço sem história, sem personalidade colectiva, uma espécie de gare aonde aporta quem tem dificuldades em entrar no corpo da cidade. É um espaço por definição transitório, uma espécie de arrumos da casa principal, e portanto sem beleza, sem requinte.

O nosso concelho está exactamente nesta secundarização, transformada num espaço desarrumado, sem ordem, sem beleza, sem qualidade.

E nada os órgãos autárquicos fazendo para realçar a sua história, a sua personalidade; nada fazendo para aumentar os seus espaços e equipamentos de convergência colectiva, os seus parques, as suas áreas de lazer – é inevitável que a sua suburbanização seja a cor que já domina entre nós: é a negligência (já tantas vezes aqui denunciada) quanto à falta de recolha selectiva dos lixos; é a falta de civilidade no comportamento dos grupos, é a transformação do centro cívico da sede do concelho num ridículo "pimbódromo", debitando tardes a fio rodos de barulho alarve, atordoando quem lá passa, ou vive por perto; é a modéstia do comércio; é a prática cultural intermitente, quase sempre ao nível da romaria; é a terrível falta de espaços e equipamentos básicos de convergência (parques, praias fluviais, campos de jogos, bibliotecas, auditórios)...

São pois os inúmeros estigmas de uma "cultura" suburbana, afinal o caldo onde germinam todos os factores de desagregação social, a violência, a delinquência, a agressividade.

Com toda esta desqualificação, é fatal que o espaço se desorganize, assim seguindo tudo num circulo vicioso imparável. Perante a desqualificação do espaço e das comunidades, os factores de valorização e de excelência, de que fala o trecho acima transcrito, ficam ausentes, são ‘apanhados’ por outras terras, perdendo-se assim níveis de competitividade. Albergaria-a-Velha já não está em condições de concorrer com a maioria das cidades e vilas do distrito, porque não exibe predicados de excelência a nenhum nível, faltando-lhe os mais básicos elementos de qualidade de vida. Não está no mapa das coisas notáveis, por nada de positivo, de digno, ou de excelente. Longe vai o tempo em que dizíamos que Albergaria já começava a ser uma boa terra para se viver. O tempo que se perdeu!

Mário Jorge de Lemos Pinto / Jornal de Albergaria
republicado no site Notícias de Aveiro em 25/09/2000


E Aveiro aqui tão perto... (2001)

O jornal PÚBLICO do passado dia 22 de Setembro dedicou a sua rubrica relativa às ‘Autárquicas 2001 – O Portugal das Cidades’ a Aveiro. E deu-lhe um título sugestivo: ‘Aveiro – Uma Aposta Certeira na Qualidade de Vida’.

O artigo dá conta que em Aveiro a qualidade de vida é uma evidência reconhecida por todos. Desde os seus habitantes até aos que estão de visita, todos sublinham as excelências desta cidade, ao nível da segurança, do ambiente, do trânsito, da arrumação urbanística, da oferta cultural. “Uma qualidade de vida traduzida em equipamentos e acontecimentos quotidianos, mas alicerçada numa infra-estruturação concluída muito antes dos grandes projectos”.

Certo que a cidade de Aveiro beneficia de um conjunto amplo de equipamentos cuja existência tem a ver exactamente com a circunstância de ser uma cidade, e capital do distrito. É o caso da Universidade e de um elenco vasto de serviços administrativos.
Mas a qualidade de vida, que pujantemente Aveiro patenteia, é a resultante de muito mais do que isto. É o produto de uma gestão autárquica cuidada e inteligente, pensada desde o primeiro momento com o objectivo de criar aos aveirenses condições de vida saudáveis e agradáveis.

A qualidade de Aveiro não resulta apenas dos equipamentos de que dispõe, mas também, e muito, de um planeamento urbanístico harmonioso, com vias de circulação arejadas e folgadas, com zonas verdes cuidadas. E é por isso que todos reconhecemos que Aveiro é uma cidade bonita, não apenas porque predestinada com condições naturais de eleição (a Ria), mas porque o ordenamento do seu espaço físico foi sempre cuidado.

Deve reconhecer-se que este manancial de excelências não pode ser anotado a crédito apenas da actual Câmara de Aveiro. Creio que isso vem (pelo menos) do tempo das Câmaras presididas por Girão Pereira, isto é, de há mais de 25 anos, e a que o elenco municipal presente soube dar continuidade, embora, por certo, com meios financeiros mais poderosos.

Este desenvolvimento da cidade de Aveiro poderia representar para Albergaria-a-Velha um de dois movimentos, de sinal oposto: ou uma tendência mimética, de imitação, uma tentativa de aproveitar o exemplo e as cinergias próprias do desenvolvimento de uma cidade tão próxima (geográfica e afectivamente). Ou, pelo contrário, um retrocesso, uma subalternização, uma suburbanização.

Ambos os movimentos são possíveis.

Há pequenas povoações que sabem tirar partido da qualidade de metrópoles de maior dimensão, criando elas próprias condições de vida de qualidade. Basta ver que o crescimento das cidades, por muito harmonioso que seja, gera sempre alguns efeitos perversos, subprodutos quase inevitáveis: mais ruído, mais trânsito, menor coesão social, mais imigração do interior, menos espaços colectivos.

As pequenas povoações adjacentes podem beneficiar de alguma procura da periferia, desde que esta ofereça o que a grande cidade não tem. É um pouco como o hipermercado, que está longe de substituir o tratamento personalizado da pequena mercearia de bairro, capaz de oferecer produtos e atendimento que não têm lugar nas grandes superfícies.
Mas o contrário também ocorre, e com mais frequência. A proximidade de uma cidade com qualidade de vida pode fazer com que as povoações satélites sofram os efeitos da suburbanização.

É o que acontece com o aparecimento dos bairros-dormitório, onde pernoitam muitos do que trabalham na cidade. Sobretudo os que não dispõem de meios que lhes permitam ocupar as zonas residenciais da cidade, mais caras, mais inacessíveis.
Os bairros-dormitório, porque são áreas de passagem, são o parente pobre dos bairros-residenciais, estes com mais qualidade urbanística, no geral providos de equipamentos de lazer, áreas verdes, e portanto mais caros.

Nos primeiros habitam (‘dormem’) as pessoas de menos recursos, em geral recem-imigrados em busca de melhores condições de trabalho nas zonas industriais das cidades, casais jovens que apenas aspiram a poderem mudar-se o mais depressa possível, e uma massa imensa proletarizada, de baixos recursos. Nos bairros-residenciais fixam-se as pessoas de mais rendimentos, ou com preocupações culturais mais exigentes, que aspiram a um modo de vida mais cuidado.
Os exemplos de uma situação e de outra acabam por ser visíveis no tecido urbanístico da nossa região.

Já há muito tempo que temos vindo a anotar a tendência suicida de Albergaria se tornar numa zona dormitório, suburbana, das cidades que a cercam, nomeadamente de Aveiro. Ou seja, é cada vez mais evidente que o nosso concelho não tem conseguido furtar-se às tendências suburbanizantes que emergem da sua proximidade das cidades.

As sucessivas gestões municipais de Albergaria têm manifestado uma clara e catatónica falta de visão para salvar o nosso concelho daquilo a que uma vez chamámos de ‘circulo vicioso da desqualificação’: a desqualificação urbanística e do ordenamento do território gera necessariamente mais des-qualificação.

Os resultados desta deriva na gestão municipal de Albergaria são por demais evidentes: um (des)ordenamento do território caótico; total ausência de zonas verdes, de lazer e de fruição colectiva; ausência de equipamentos de convergência colectiva; vias de comunicação estreitas e sinuosas, acentuando a conglomeração dos edifícios; implantação de edifícios a esmo, gerando subprodutos físicos, como becos, esquinas, varandas dependuradas sobre as vias, convivências espúrias de habitações unifamiliares com prédios em propriedade horizontal; trânsito ‘terceiro-mundista’, desregrado, já entupido a algumas horas e em algumas vias.

As consequências sociais e económicas são notórias: mentalidade, comportamentos, padrões de cultura suburbanos, sobretudo da juventude; insatisfação das pessoas, gerando individualismo e agressividade; ociosidade e ausência de mecanismos de ocupação de tempos livres; êxodo dos jovens quadros técnicos, para zonas com mais qualidade; baixo nível de rendimentos e consequente baixo poder de compra das famílias; logo, comércio incipiente e sem dinâmica.

Em conclusão, o concelho de Albergaria-a-Velha tem sido influenciado negativamente pelo desenvolvimento de Aveiro: em vez de tentar acompanhar a reconhecida qualidade de vida desta cidade, Albergaria está a sofrer os efeitos que marcam o aparecimento das terras-dormitório.

Tudo resultado de uma gestão municipal sem ambição, sem qualidade, sem bom gosto, sem inteligência. De vistas curtas.

Mário J. Lemos Pinto/Jornal de Albergaria
Republicado pelo site Noticias de Aveiro em 05/10/2001