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terça-feira, 16 de agosto de 2022

Infância na Branca

Quando entrei para a escola primária, em outubro de 1945, já esse belo edifício estava em degradação.

Não havia casas de banho, nem água canalizada. Bebíamos água da fonte das amieiras e lavávamos a cara no rego que passava do lado norte. Muitos de nós íamos descalços ou com sandálias feitas de madeira, com uma tira de correia das lonas da Caima e com um saco de serapilheira feito capuz enfiado na cabeça quando chovia!

Poucas casas tinham electricidade e não havia luz pública, nem sequer estradas asfaltadas. As poucas que ligavam os lugares entre si e a Igreja eram em macadame ou em terra batida, esburacadas e muitas delas cheias de lama todo o inverno.

Na estrada real, de paralelepípedos, que ligava o Porto a Lisboa, passavam poucos carros e uma camioneta de vez em quando, que se ouvia ao longe, antes do Ribeiro da Póvoa e dava tempo de irmos de Casaldima até à escola pendurar-nos nos taipais. Se o Professor soubesse, trabalhava a "menina".

(...)

Ao domingo íamos brincar ao "réu-réu pum", ver os craques jgar à malha e a disputar o galo ou ouvir o relato do futebol pelo conhecido locutor Quadro Raposo, no rádio do Ti Francisco da Sarraipa ou do Ti Joaquim do Abel, os únicos qua havia em Casaldima.

Eram estes os únicos divertimentos de então. Mais tarde, na casa do Senhor Tojal, na Barroca, começaram a realizar-se umas sessões de cinema. Lembro-me dos cartazes afixados do filme "Capas Negras".

O senhor Professor Madeira, residente na escola, era rabugento e disciplinador, mas um verdadeiro artista e muito criativo. Escrevia cantigas e ensaiava entremeses e marchas populares, tendo escrito e ensaiado, entre outros, um hino à Branca, que começava assin: "Ó Brana, ó terra linda..". E deu aulas a adultos no lugar de Fradelos. 

(...)


Flausino Silva 
(texto comemorativo do 30º aniversário da elevação da Branca à categoria de Vila - livro Dos Autarcas Braquenses, 183 anos de história local - Nélia Oliveira (2019))

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Margarida Ferreira Coutinho / Turcos


ENTREVISTA A MARGARIDA COUTINHO – AUTORIDADE LOCAL LITORAL - RG 2017*

- Quem é a Margarida Ferreira Coutinho?

- Sou uma mulher simples, com gostos simples e sem manias de grandezas. Sou um pouco como os turcos: biscoitos simples, feitos com ingredientes simples. Gosto de trabalhar e como parar é morrer, todos os dias coloco o meu avental e vou para a cozinha.

- Uma vida inteira dedicada à doçaria. É muito tempo…

- Faço o que gosto. Nunca pensei em mudar ou desistir. Tenho muito orgulho nos meus doces e faço gosto em que a tradição se mantenha com as próximas gerações. Tenho 5 filhos, 12 netos e 2 bisnetos, por isso estou tranquila quando ao futuro. Os mais novos já dão uma ajuda.

- Mas a tradição ainda é o que era?

- No essencial sim. Claro que houve mudanças, por necessidade e evolução dos tempos. Hoje usamos batedeiras e fornos eléctricos. No início era tudo amassado manualmente e cozido em forno a lenha. Era um dia para fazermos a quantidade que agora fazemos em poucas horas. Mas ainda gosto de moldar os turcos à mão.

- Cupcakes, bolachas XXL com pepitas de chocolate… Não tem medo da concorrência?

- Não. Os meus clientes mais antigos continuam fiéis e os novos voltam sempre. Quando participamos em eventos públicos, as pessoas procuram-nos e compram. Os mais velhos recordam os tempos de criança quando iam com os pais comprar turcos. Para os mais novos é uma novidade e eles gostam.

- Tem uma memória de elefante para recordar com tanto rigor a sua história e a dos seus biscoitos?

- Eheheh! Não, nada disso. As boas memórias ficam guardadas para sempre.

Entrevista por Cláudia Ferreira Henriques (Revista Gerador #9)

Ilustração por Ana Campos


* A Cláudia Ferreira Henriques é a nossa autoridade local no litoral. Na Revista Gerador #9 falou-nos da Margarida Ferreira Coutinho, “doceira de profissão e paixão”. Hoje partilhamos a entrevista exclusiva da Cláudia à Margarida ;-)  

https://web.archive.org/web/20171209071647/http://gerador.eu/entrevista-exclusiva-margarida-coutinho-autoridade-local-litoral/

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Alameda

https://www.facebook.com/groups/432655123476915

imagem de capa do grupo Fórum de Albergaria - texto e imagem colocados por JPB

Alameda | s. f.

a·la·me·da |ê|
substantivo feminino

1. Rua orlada de árvores.
2. Caminho orlado de árvores de sombra.
3. Passeio arborizado.
4. Sítio plantado de álamos.
5. Bosque

(JPB/Fórum de Albergaria, 25/01/2015)

Alameda

Via de circulação animada. fazendo parte de uma estrutura verde de carácter público onde se localizam importantes funções de estar, recreio e lazer. É uma tipologia urbana que, devido ao seu traçado uniforme, à sua grande extensão e ao seu perfil franco, se destaca da malha urbana onde se insere. sendo muitas vezes um dos seus principais elementos estruturantes.

Necessariamente elementos nobres do território, as Alamedas combinam equilibradamente duas funções distintas: são a ligação axial de centralidades, através de um espaço dinâmico mas autónomo, com importantes funções de estadia, recreio e lazer.

Avenida

O mesmo que a Alameda mas com menor destaque para a estrutura verde, ainda que a contenha. O traçado é uniforme, a sua extensão e perfil francos (ainda que menores que os das Alamedas).

Hierarquicamente imediatamente inferior à Alameda, a Avenida poderá reunir maior número e/ou diversidade de funções urbanas que aquela, tais como comércio e serviços, em detrimento das funções de estadia, recreio e lazer.

Poder-se-á dizer que se trata de uma via de circulação mais urbana que a Alameda, em que até o nome remete para um espaço mais bucólico-Álamo.

(REGULAMENTO MUNICIPAL DE TOPONÍMIA)

DO FACEBOOK ...

Este local das árvores foi onde se realizava o mercado. Era o local onde nós jogávamos à bola quando eu andava na escola no teatro velho e (...) em que "apanhei" grandes corridas a fugir da GNR que nos cercava para nos apanhar a bola. Houve uma vez em que estávamos a jogar na frente do "cinema" antigo e numa jogada passei a bola ao Artur Pinto de Vasconcelos (Garrafa) e ele chutou a bola e esta foi apanhar o GNR Antunes em cheio na cara que caiu junto com a bicicleta. Mas quando se levantou já não encontrou ninguém. Fugimos como ratos e fomo-nos esconder debaixo do soalho da plateia nos nossos esconderijos e não fomos apanhados mas a bola foi-se....!!

Bons momentos da minha infância.

António Lopes, Grupo facebook Amo A Minha Terra, 02/05/2012

A imagem foi publicada originalmente por Duarte Machado nessa data.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Vicente da Câmara


O meu avô Vicente que ainda tanto adoro e reconhecido pelo então ministro das obras públicas. Beijinhos meu querido avô que jamais te esquecerei. Foste o Homem mais honesto que eu conheci.

Maria Manuel Pinho, 21/11/2012

Recordo-me perfeitamente do Sr. Vicente da Câmara como era conhecido. Avô da minha amiga de infância Manuela Pinho, vezes sem conta as duas nos escondemos dele em tempo de férias escolares, mais precisamente, quando davamos uma fugidinha até ao jardim, para que ele não visse a neta e começasse a fazer perguntas, ás quais nós queríamos escusar

Graça Henriques, 25/12/2012

(fotografia colocada por MMP no grupo Amo A Minha Terra Albergaria-a-Velha, comentários à referida imagem)

Valente de Oliveira foi Ministro do Planeamento e da Administração do Território até 1995 e esteve várias vezes em Albergaria. https://novos-arruamentos.blogspot.com/2010/05/1995-albergaria-renova-pacos-do.html



quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

O que é uma grande mulher?


O que é uma grande mulher? Expressão utilizada para descrever mulheres com dimensão superior. Mulheres admiráveis. Mulheres fortes e empenhadas. Surpreendentes. Mulheres dedicadas, que arranjam tempo e forças onde elas parecem não existir. Mulheres com uma energia transformadora.

Ao longo da minha vida, tive a sorte de conhecer algumas grandes mulheres.

Duas delas, exemplos maiores para mim, figuras inspiradoras, já partiram. Ambas, cedo demais.

Deixem por isso que vos fale delas… as duas grandes mulheres da minha vida: minha mãe, Eugénia, e a mãe dela, minha avó, Delmira, filha única, de mãe solteira e pai incógnito, ficou órfã aos 14 anos. Também a sua mãe, minha bisavó, partiu cedo demais, devido a doença incurável nos idos de ’31. Dela sei apenas o nome, que é o meu, em sua homenagem. Clara. E uma data: 1 de Janeiro, o dia em que partiu. Nada mais. Nem uma imagem. Nenhuma referência. Nenhuma outra história para contar.

Minha avó Delmira, ou Delmira Clara como os mais velhos lhe chamavam, era analfabeta. Pobre de condição social, não teve oportunidade de ir à escola, que só estava ao alcance de alguns. Desde cedo começou a trabalhar na terra e cedo se casou. Aos 17. Meu avô, com a 4ª classe, foi um autodidacta, tantas vezes ao serviço da comunidade, mas não sujava as mãos na terra. Mãos imaculadas, que compunham obras musicais e seguravam a batuta com que dirigia a Banda Filarmónica. Mãos que desenhavam uma caligrafia irrepreensível, as mesmas que seguravam o giz, as fazendas e o velho ferro de brasas, com os quais trabalhava diariamente na sua alfaiataria.

Meu avô Alberto nada sabia fazer nas lides da casa, nem o caldo de galinha para os dias em que minha avó dava à luz. Dizer que dava à luz é um eufemismo, porque parir é a palavra que melhor retrata a realidade daqueles tempos. É também a palavra que ainda hoje muitos usam, sem preconceito semântico, sem medo do carácter mais rude, mas verdadeiro da palavra. Minha avó pariu a maioria dos filhos sozinha, porque não tinha dinheiro, deixando a sua vida e a do novo filho nas mãos de Deus. Apenas no primeiro, o meu avô chamou o médico da terra. A preocupação de como se iria pagar ao Dr. Portugal foi secundarizada perante a emergência, numa época em que tantas mulheres morriam durante o parto. Foi um nascimento difícil, o do primogénito, que acabou tirado a ferros. Depois disso, a experiência tomou conta do recado, mesmo no parto mais complicado de todos, o sexto, do qual necessitou de maior tempo de convalescença. Dessa vez, não regressou ao campo dois ou três dias depois, como sempre fazia. Um filho entrava no mundo, a terra dava o alimento, a terra não podia esperar.

A vida seguia o seu curso sem tempo para lamentos, como quando, poucas horas depois de colocar mais uma criança no mundo, se punha na fila para comprar pão. Um conterrâneo atento, quase indignado pela ‘loucura’, mandou-a para casa. O pão lá chegaria, pouco depois. Era assim a minha avó Delmira. Uma força da natureza. Uma lutadora perante as dificuldades. Uma mulher que não se queixava, porque nunca tinha vivido de outra forma.

Eram assim as Marias Capazes, as Delmiras das aldeias longe dos centros urbanos, em pleno período do Estado Novo, onde o dia-a-dia não era muito mais do que a superação constante de obstáculos.

Minha mãe foi a 4ª de 11 irmãos. A primeira menina. Nascida a 29 de fevereiro de 44, não quis o destino que tivesse o seu dia de aniversário assinalado no calendário, a cada novo ano. Perante o dilema da criança que se vê ‘saqueada’ do seu dia, minha avó decretou 28 de fevereiro como o dia a celebrar. Fossem esses todos os problemas, e seriam fáceis de resolver.

Ao contrário de minha avó, a Geninha teve a possibilidade de estudar. Gostava da escola, era boa aluna e tinha sede de aprender. Fez a 4ª classe, a escolaridade obrigatória de então.

De nada valeu a insistência da professora para que continuasse os estudos. Tinha 11 anos quando os meus avós a mandaram para Lisboa, ao cuidado da madrinha, para começar a servir. Os poucos escudos que ganhava, enviava para ajudar no sustento da família, que continuava a crescer. Também ela, nunca se queixou de ter sido obrigada a assumir responsabilidades de adulta, quando deveria ser apenas criança. E, mais tarde, quando eu lhe perguntava quão difícil tinha sido, ela apenas me dizia que o pior era quando a noite chegava e, já na cama, chorava com saudades da mãe, do pai e dos irmãos. Quando um novo dia nascia, o trabalho ocupava-lhe a mente e abafava a saudade. Até a noite chegar, de novo…

Casou-se aos 22. No nascimento dos dois filhos, teve direito a uma cama de maternidade e a parteira profissional. Teve direito ao tempo necessário para recuperar, depois de dar à luz. Teve direito a algum tempo para cuidar de mim e do meu irmão no primeiro mês de vida e, quando o trabalho já não podia esperar, levava-nos com ela. Mas teve, tal como a mãe, uma vida de trabalho duro. Trabalho para ganhar e poupar. Trabalho, para construir uma casa. Trabalho, para dar aos filhos a possibilidade de estudarem. Trabalho em casa, depois do trabalho, para ganhar um dinheiro extra. Trabalho para evoluir e mudar o rumo da sua própria vida, ao profissionalizar-se numa área para a qual tinha um talento imenso: a cozinha.

Assisti a muito do que fazia esta ‘mulher de trabalho’. Já na fase final da vida, ainda demasiado jovem, mas já condenada a partir, assisti, incrédula, ao que ainda era capaz de fazer, sem se deixar vergar pela doença.

Minha mãe poderia ter sido o que quisesse ser, assim lhe tivesse sido dada a oportunidade. Tinha a força, a vontade e a inteligência para o fazer.

Muitas coisas mudaram desde esses tempos. Na condição da mulher, no acesso a cuidados de saúde, no acesso à educação.

Eu tive as oportunidades que nenhuma delas teve. Tive direito a tudo o que a minha avó não teve, e a mais do que teve a minha mãe. Mas tive sobretudo o exemplo de força e coragem que me deixaram, e que considero o seu maior legado.

É a estas duas grandes mulheres, Marias Capazes, que presto homenagem neste texto… e através delas, a todas as grandes mulheres que se revelam perante as novas dificuldades destes novos tempos, que se superam, não se resignam… e não baixam os braços. A cada novo dia, vislumbra-se o amanhã. O seu legado perdurará.

Clara de Sousa, Maria Capaz, 15/12/2014

(A jornalista da SIC tem raízes em Angeja)

Era uma bebé de colo, levada pelos meus pais, na minha primeira viagem "à terra". 

Os jovens Antero e Eugénia, casados ainda nem dois anos antes, iriam assim dar a conhecer a sua primogénita a toda a família. A de Angeja primeiro, porque era a primeira paragem após a saída de Lisboa, e a de Filhagosa, a que demorava mais a alcançar, mas que se podia abraçar após um longo e extenuante dia de viagem. Outros tempos, de um país com lentas ligações rodoviárias e ferroviárias.

Ror de Coisas - Agosto de 1968

Uma publicação amiga trouxe, até nós, este excepcional texto de Clara de Sousa. Partilhamos o elogio, a homenagem que faz a duas mulheres da sua vida, a avó e a mãe, nossas conterrâneas, porque servirá de mitigador do desalento, da solidão e da saudade que nos trouxe\ a pandemia em que vivemos.

facebook do Jornal D'Angeja, 3 de fevereiro 2021

Clara de Sousa já lançou 3 livros de receitas que dedicou à mãe, por ter sido ela quem lhe transmitiu a paixão pela cozinha ainda na infância. "Para a minha mãe, de cuja massa sou feita e que me moldou", pode ler-se na dedicatória de 'A Minha Cozinha', editado em 2011.

Os anos passam, mas as saudades continuam. Clara de Sousa, que perdeu a mãe em 2002, vítima de cancro, fez questão de assinalar o Dia da Mãe com uma fotografia antiga da progenitora. E as semelhanças físicas entre as duas são inegáveis.

Flash, 7/05/2018

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Regueifa de canela

Agora que tanto se fala (e ainda bem!) da regueifa de canela de Albergaria, dou aqui público testemunho que a do fabrico do Élio Dinis, do Nobrijo, Branca, de que sou comprador, há mais de dez anos, é excelente.

Sempre a compramos no mercado da Costa Nova, nas manhãs de sábado ou domingo, quando lá vamos, ao peixe. E é a melhor altura de a comprar, para se comer à sobremesa do almoço, quando a sua textura, sabor e aroma estão mais refinados.

Então, é assim.

Quando lá for, não peça “uma” regueifa: peça, sim, “aquela” regueifa. Ou seja, escolha-a primeiro, com o olhar, na bancada. Escolha a que estiver mais cozida, e portanto mais castanha e com muitos “olhos” e mais negros. Depois de indicar “aquela” regueifa, a escolha ainda não está completada: observe a parte de baixo, que também deve estar escura, entre o castanho escuro e a cor de cinza. Daí que o processo possa demorar o seu tempo, mas pode crer que o Élio Dinis ou as meninas que estão no balcão terão a necessária paciência, pois identificarão imediatamente que é um conhecedor do assunto, a quem se deve corresponder com solicitude. De um lado, quem cozinha com arte; do outro, quem sabe o que quer comer. E depois, pode ser que os espanhóis que andam por lá também aprendam alguma coisa.

COM VAGAR

Feita a compra e pago o ridículo preço de 1,25€ pela regueifa, tenha cuidado em não a amassar dentro do saco. Por isso, se entretanto também comprou um saco de suspiros, ou de bolos de gema, ou um folar (ou tudo junto, o que está longe de ser um exagero, pois dá para oferecer aos filhos e aos pais) tenha cuidado para não colocar tudo dentro do saco, a esmo: separe os artigos com cuidado.

Agora, não tenha pressa em começar a comer a regueifa, pois se o fizer arrisca-se a não ter sobremesa. Guarde-a na mala do carro e traga-a direitinha para casa.

Depois dos preliminares prandiais de um almoço de sábado ou domingo, que imagino que sejam mais demorados que o costume, é chegado o momento de atacar a regueifa. Tenha logo em atenção que se trata de um acto comunitário, familiar. O exemplar vem para a mesa, inteiro, e a família ou os amigos estão cerimoniosamente expectantes. O produto merece-o. Vai começar o segundo momento da sua digressão gustativa, pois que o primeiro foi a escolha.

E pergunto eu: sabe como se come a regueifa? Digo-lhe já que há uma regra de oiro: nada de faca! A regueifa não pode ser cortada, mas sim esgaçada, o mais delicadamente possível, com as pontas dos dedos, para não a asfixiar. Cada conviva retira o seu pedaço de regueifa, esgaçando-o na horizontal e coloca-o no seu pratinho. E pode então começar, “descascando”, ou seja, retirando a crosta de cima, pelos “olhos”, que não são mais que bolhas de massa que cozeram e ficaram enfolipadas) e vai comendo. As pequenas hóstias castanhas, quebradiças, são uma delícia! E por isso já percebeu por que a regueifa deve estar bem cozida, pois só assim obterá uma crosta consistente e levemente quebradiça, às vezes crocante.

UMA UNIÃO PARA A VIDA!

Comida a parte cima do seu naco de regueifa, passa à parte de baixo, que é rugosa, estriada. Vai arrancando essas estrias de pão, como se estivesse a desfiar um pedaço de bacalhau – se a crosta foi saborosa, a côdea, comida em lascas, é ainda melhor. Faça por as lascas saírem rapadas, sem miolo, porque este vai a seguir. Na sua mão vai por fim ficar então o que restou do pedaço de regueifa, que é o miolo. E quando o comer, logo perceberá porque lhe recomendei que tivesse cuidado no transporte do artigo e não o amassasse, e também porque lhe disse que não deve usar faca e porque deve “desconstruir” o pedaço de regueifa com cuidado e com critério. É que só assim obterá um miolo esponjoso, dúctil, leve e perfumado. Comer aquele bocado final de regueifa, o miolo, é o culminar de sensações gustativas de eleição, e que só um produto único e de extraordinária qualidade como é a regueifa de Albergaria lhe pode proporcionar.

Já agora, ela vai com qualquer bebida, até mesmo a água. Mas a regueifa com um cálice de Vinho do Porto – é uma união para a vida!

Mário Jorge lemos Pinto / Correio de Albergaria, 28/05/2014

https://arquivo.pt/wayback/20150912105211/http://www.correiodealbergaria.pt/?p=1268


sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Casa de Alcino Soutinho em Albergaria-a-Velha


A caixilharia foi uma brutalidade em dinheiro, foi o Soutinho que a desenhou, são todas com vidro triplo. Ele inicialmente queria vidro duplo, mas eu tinha um amigo meu que tinha uma fábrica de vidros e ele pôs o laminado por fora, têm dois, caixa de ar e depois têm outro por dentro. Obriga a uma manutenção grande a casa. Isto é uma brutalidade, na altura o que eu gastei aqui em madeiras dava para comprar um apartamento (gargalhadas).

(…)

Havia aqui um presidente da Câmara, que era o doutor Rui Marques do CDS. Ele tinha comprado uma casa ali em cima, que é uma zona chamada Campinho com uma área muito grande de terreno e envolvente, uma casa antiga, apalaçada e ele começou a restaurar essa casa e foi o Soutinho que começou a restauração.

Entretanto comprei este terreno que é dum tio-avô meu. É muito grande este loteamento, tem oito lotes. Este aqui têm 1250 metros quadrados. Comprei isto em 1985 e dei por este terreno quatro mil e quatrocentos contos, era muito dinheiro. A casa é de 1990 mas só foi concluída em 1999.

E então o Rui Marques, ele era meu amigo eu falei com ele e disse-me “vou-te apresentar um arquiteto e gostava que tu fizesses a casa com ele, é um arquiteto muito bom e eu precisava de começar a ter casas arrojadas em Albergaria”. E nós fomos falar com o Soutinho, fomos lá ao Porto, estava ainda na zona nova, ele estava na rua que vai dar à Constituição do lado esquerdo. Nós fomos falar com ele, e lá lhe demos o programa, o quê que queríamos. Era uma casa de primeira habitação, cinco quartos, cinco casas de banho, piscina…

(…)

Têm aqui um jardim interior quando se entra, onde as divisões se desdobram em volta deste jardim. Tudo feito por construtores locais. Isto aqui (o jardim interior) é o sítio de brincadeira do meu neto, ele adora este sítio.

O chão é todo em madeira em tábua corrida. O sol desgasta as madeiras. Isto aqui é um escritório, repare neste móvel que faz uma separação e serve de apoio ao escritório,

foi ele que fez o desenho. Ainda tenho aí os desenhos e ainda esquissos que ele fez para explicar aos proprietários.

Esta casa tem um problema muito grande é a falta de arrumos. A casa para ser construída no terreno teve de ser toda desaterrada, e criou aqui um falso e podia ter aproveitado para fazer um compartimento nessa zona que foi aterrada depois e resolvia-se a falta de arrumação. É que o arquiteto desenha mas depois nós que vamos habitar temos outras necessidades.

Este quarto de baixo, serve para quando alguém tem um problema de mobilidade e não consegue ir para o andar de cima. E a casa de banho que dá serventia à parte de baixo. Repare que tudo têm portadas interiores, é uma segurança. Já na altura enveredei por comprar materiais bons, as peças sanitárias são todas Rocca. Ali é a cozinha. Aqui é um corredor que dá acesso a três salas. Esta sala usamos todos os dias, a outra é mais quando vem visitas, mas no fundo não é uma sala muito usada. A casa à frente têm pouca abertura, atrás está toda rasgada.

Lá atrás tenho um forno de lenha e a casa da piscina com balneário. Uma pérgula a toda a volta.

(…)

Aquele muro (de vedação da propriedade) caiu, houve um ano em que choveu muito e existia uma linha de água, isto aqui eram uns campos com silvas e dum momento para o outro choveu muito e as linhas de água aparecem. Os vizinhos não tinham muros e o meu muro fez de barragem, aquilo foi até à tensão de rotura. A piscina desapareceu, apareceu-me água no piso debaixo. A qualidade dos materiais revelou-se nesse momento, porque mesmo inundado o piso debaixo o chão de madeira ficou impecável.

(…)

Aqui tem uma sala, uma sala de jantar. Esta escada aqui é bonita, mas tira aqui um espaço nas salas, se ficasse uma sala ampla era outra coisa. Para festas é aqui que subimos e descemos. Quando vimos o projeto final da casa a minha mulher disse: “aqui esta escada senhor arquiteto não gosto muito”. Ele também queria por umas colunas redondas nas salas, e ainda me cortava mais as salas. A ideia quando eu lhe falei é que eu queria uma sala de jantar com portas de correr mas que me desse continuidade para outra sala, imagine que tinha aqui um jantar grande abria as portas e tinha outra sala para puder aumentar-me. É interessante este pormenor da escada porque eu lembro-me que o arquiteto disse “isso é como as senhoras que usam aqui um apêndice, um penduricalho num casaco” (gargalhadas).

(…)

As portadas abertas ou fechadas criam dois ambientes diferentes, nem parece a mesma casa.

(…)

Não comemos na cozinha, a cozinha é para cozinhar não é para comer, o Soutinho queria que assim fosse. Estes móveis da cozinha foram todas desenhadas por ele criando um plano de fora a fora. Tem bastante luz a casa toda. Os móveis são todos de origem. Eles dizem que isto é um “implúvio”. Tem este interior árabe. Vinha sempre a Andrea aqui e outro arquiteto que também lá estava no escritório, parece-me que foi o João Cabral, tinha assim o cabelo grande, seria da mesma idade da Andrea. Quando houve este problema do muro o Soutinho veio logo ver o que aconteceu.

(…)

Lembro-me de termos ido ver outras casas que o Soutinho fez, por exemplo a de Matosinhos.

(…)

Esta casa era para ser branca, o arquiteto foi a um congresso em Itália, e tinha, inicialmente a ideias de pintar de branco. Entretanto acho que fez a apresentação em Itália da nossa casa e perguntaram-lhe a cor, e ele falou em branco e houve críticas ao branco e disseram para ele não a pintar de branco, que a casa ficava com outro ser completamente diferente. Nem imagino esta casa pintada de branco.

(…)

Se soubesse quando ela foi construída, foi na altura do Saddam Hussein, e aqueles problemas que houve no médio oriente, foi muito criticada a casa. Foi polémico, chamaram bunker. Na altura os meus filhos andavam na secundária e mesmo eles eram criticados, chegavam a casa e diziam “oh mãe, a mãe do meu amigo disse, Carlos que casa horrível que vocês estão a fazer.” Depois da nossa começaram já a mudar na rua.

(…)

O que foi uma loucura foram os cálculos de engenharia. Ele estava a trabalhar nos prédios da Mota Engil um engenheiro qualquer, ele até estava com receio em nos dizer o preço, foi uma loucura. O comentário que eu fiz ao Soutinho foi “Oh senhor arquiteto

ponha a arquitetura de lado e comece a fazer cálculo” e ele disse “tem razão, vou pensar seriamente nisso” (gargalhadas). Em relação à casa, eu acho que tem um trabalho muito meritório e forte. É um contraste.

(…)

Tem aqui uma parte muito linda, esta escada de lanço único, com este varão aqui de lado enquadrado com estes painéis brancos é espetacular.

Obrigado, volte sempre que precisar ou queria visitar a casa, gostámos muito.

EXCERTOS DA CONVERSA COM CARLOS VIDAL - Anexos (123-126)
(2 de agosto 2019, na casa de Albergaria-a-Velha)

AS CASAS DE ALCINO SOUTINHO - estudo das habitações unifamiliares entre 1963 a 2003
PROJETO DE DISSERTAÇÃO. ANA RITA MOREIRA (2020)

https://bdigital.ufp.pt/bitstream/10284/8693/2/TM_Ana%20Moreira.pdf

https://bdigital.ufp.pt/bitstream/10284/8693/3/TM_Ana%20Moreira%20-%20Anexos.pdf

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A relação que Alcino Soutinho possuiu com os seus clientes e amigos, foi relatada pelos próprios aquando as visitas às habitações. Alegre, preenchida de momentos de socialização entre famílias e amizades que perduram uma vida. Alcino Soutinho era a “alma da festa”, com os seus jogos, piadas, seriedade nos momentos adequados, contrariando e educando muito vezes o próprio cliente, no sentido duma melhor arquitetura, que este cria, pois a experiência e poética assim o ditavam. 

Das histórias que foram contadas pelo arquiteto e eternizadas através do livro de “Conversas com Arquitetos", de Nuno Lacerda, Soutinho conta uma história acerca do casal Vidal, proprietários da Casa de Albergaria-a-Velha.

“(…) fiz uma casa (…) que era um casal, constituído por um senhor muito simpático que era funcionário superior de um banco e a mulher que era médica dentista.

E que me chegou lá e disse: “senhor arquiteto, a única coisa que eu queria é que o senhor me fizesse uma casa com telhado, eu não posso com os caixotes”. Eu disse logo que sim, até porque eu tenho muito respeito pela telha, que é um material tão digno como qualquer um. Depois, traziam-me também um clássico, que era uma folha rasgada de uma revista com uma casa qualquer. Eu disse: “sim senhor, não tenho qualquer problema”. E então fiz um projecto que é uma casa que tem os telhados todos a descer para o interior da casa que depois tem um núcleo central. Portanto, quando se está de fora só se vê o limite, a cumeeira. Portanto, são telhados que convergem nesse núcleo, que é o centro da casa. Eu cheguei, mostrei uma maqueta, falámos sobre isso e a senhora ficou a olhar para mim e disse-me assim: “o senhor arquiteto fintou-me”. E eu perguntei-lhe:“mas porquê?”. E ela disse: “porque fez um telhado mas não fez…”. E eu disse: “então, mas está cá a telha, está cá o telhado, se queria assim ou assim, e eu gosto mais assim”. E achei graça, depois deu-se uma relação muito interessante” (Soutinho, 2010).

AS CASAS DE ALCINO SOUTINHO - estudo das habitações unifamiliares entre 1963 a 2003
PROJETO DE DISSERTAÇÃO. ANA RITA MOREIRA (2020)

ANEXO II LISTA DAS OBRAS DE SOUTINHO

1988 - Remodelação e ampliação de uma habitação em Albergaria-a-Velha

1990 - Habitação unifamiliar, Albergaria-a-Velha 

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Fonte da Telha


Uma boa fotografia desta belíssima fonte que deu o nome à Fonte da Telha.

Fonte centenária (já muito anterior ao meu avô José Ribeiro), de água corrente, com dois tanques de granito, onde, durante décadas, as populações (essencialmente mulheres) vinham lavar roupa e encher os cântaros de água para beber e cozinhar.

Ponto de encontro de gentes da nossa Albergaria, como era comum e habitual noutras fontes e lavadouros.

Zona privilegiada de nascentes que embelezam e enriquecem estes terrenos frondosos.

Margarida Mourão Ribeiro, 25/06/2020 (retirado do facebook)

Foto partilhada por Celso Santos no facebook A nascente da Fonte da Telha)

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Na Esquina


ACABAR COM OS VEREADORES A TEMPO INTEIRO

Todas as Câmaras municipais têm vereadores a tempo inteiro, adjuntos e secretários.

O número de uns e de outros varia consoante a dimensão da autarquia. Admito que, em média, a coisa seja como em Albergaria: dois vereadores a tempo inteiro, um adjunto, um(a) secretário(a). Câmaras haverá com mais, outras com menos. Por isso, é uma média.

Quanto se gasta com este staff?

Contas por alto, admitamos que, em gastos directos, sejam uns 8.000€/mês (brutos) para os quatro, ou seja, 112.000€/ano.

Temos 308 municípios, e é só multiplicar: 34.496.000€/ano.

Isto, em gastos directos. Mas há os gastos indirectos: automóveis, telemóveis, consumíveis, desperdícios, etc.

Quanto vale isto? Não sei, mas admitamos mais 20%. Um total, portanto, superior a 41 milhões de euros, por ano.

E cabe perguntar: que faz esta gente? Ou melhor: que faz esta gente, que os funcionários das câmaras não possam, ou não saibam fazer?

Os funcionários das câmaras são trabalhadores experimentados, com provas dadas, habilitações adequadas, com quem o Estado (com os nossos impostos) já gastou na sua preparação. São partidariamente isentos, dedicados (ou pelo menos obrigados) ao serviço público. Estão vinculados à lei e respondem, perante os cidadãos e os tribunais, pelo zelo e diligência com que cumprem as suas funções.

Já os vereadores permanentes, adjuntos e secretários são o pessoal partidário que constitui “o gabinete da presidência”, apenas vinculados ao presidente, trabalhando para a sua manutenção no poder, cuidando das respectivas clientelas político-partidárias. E, como agora se vê por todo o lado, são a estrutura que prepara a recandidatura dos actuais presidentes, ou que suporta a candidatura de um dos vereadores.

A preparação desta gente, em termos de administração autárquica, é em geral nula: apenas se lhes exige fidelidade partidária e voluntarismo.

Sendo assim, porquê, nos tempos de contenção em que vivemos, a existência destes gabinetes, suportados pelos impostos dos portugueses, quando é certo que os funcionários camarários cumpririam bem melhor as suas funções? Pois, de duas, uma: ou as tarefas desse pessoal são administração autárquica, e então lá estão os funcionários que estão mais preparados para as desempenhar. Ou as suas tarefas são de natureza político-partidária, e então não têm que ser pagos pelo orçamento da autarquia!

Seria preferível voltar aos tempos antigos, em que ser vereador era um serviço público, sem outra remuneração que uma senha de presença nas respectivas reuniões, e em que o trabalho técnico era desempenhado pelos funcionários, que são preparados para isso.

E assim se poupavam uns milhões de euros, muito preferível a que o Governo os vá buscar despedindo funcionários públicos, ou cortando as pensões de reforma.

FB

ALBERGARIA SEM VIDA

Faz agora um ano que publiquei no Jornal de Albergaria um artigo sobre o antigo Girassol, e que agora é o Praça Pública, ali entre os Paços do Concelho e a Casa da Justiça.   Fiz-lhe um pouco da sua história, enalteci o espaço de convivialidade que tão bem desempenhou, lamentei o seu desdouro e censurei o marasmo em que agora se atolou.

Um ano decorrido, tudo continua na mesma, ou pior. O edifício mantém-se hostil à ampla frequência pública que antes tinha, e por isso, ao começo da noite, o centro da vila (não me habituo a chamar-lhe cidade) fica deserto, inóspito, esvaindo-se de pessoas que, como sombras, se vão afastando.

Escrevi mais ou menos isto (aproveitando agora um título emprestado):

Em 1973, o presidente da Câmara de Albergaria, José Nunes Alves, imaginou a instalação de um café na praça em frente aos Paços do Concelho. Nessa altura ainda não existia o edifício do tribunal, nem a actual Alameda (pastelaria e escritórios). Havia apenas o terreno amplo, com ameixoeiras e diospiros. Ali, um café seria um excelente espaço de convivialidade e de movimentação cívica e comunitária, criando um complemento importante ao centro cívico da vila. Uma espécie de sala de estar, categorizada pela localização e pela vizinhança dos Paços do Concelho (onde, além da câmara, funcionavam os serviços municipalizados, a tesouraria e repartição de finanças, o tribunal e as conservatórias) e pelo restaurante da Casa Alameda, que nessa altura era um referencial turístico da vila (talvez o único).

Alder Lemos Lopes interessou-se pela ideia e construiu ali o café, em regime de contrato de concessão com a câmara municipal. O projecto, da autoria do arquitecto Gigante, era básico, como convinha: um edifício de um piso, circular, totalmente envidraçado, excepto o lado dos serviços (arrecadação, cozinha e WC), virado para o cinema. À frente, para os Paços do Concelho, ficava a esplanada sob as ameixoeiras. O estacionamento era farto e à vontade. De tão simples, e aberto para todos os lados, com largas e despretensiosas vidraças, mobiliário moderno e simples, o edifício era atraente e aprazível. Inaugurado como café e snack-bar, o Girassol (assim foi designado) logo se tornou um local de eleição para o convívio e o encontro dos albergarienses.

As pessoas visitavam-no e frequentavam-no, de manhã até à meia noite (no verão até era mais), sete dias por semana, fosse para a conversa de grupos, fosse para a leitura de um jornal ou um livro, fosse apenas para a contemplação de quem passava nas ruas, num “dolce fare niente” que é também um dos prazeres da vida. O sol jorrava intensamente, para satisfação dos mais idosos que ali espreguiçavam na cavaqueira do futebol e da política.

Era também o local de encontro de quem vinha de fora, porque era uma referência simples e directa: “encontramo-nos no café em frente à câmara”.

Quando em 1980 foi inaugurado o edifício do tribunal, das conservatórias e do notariado, assim completando o centro cívico, o café ganhou maior importância, como local de passagem quase obrigatório das pessoas que acediam a estes serviços públicos.

O Girassol tinha os seus clientes fiéis: mesmo quem almoçava na Casa Alameda, vinha ali tomar o café. Clientes eram praticamente todos os albergarienses que cultivavam o convívio e o “sair de casa”. O espaço era amplo, a esplanada um amplo palco estratégico para quem se entretinha a ver quem passava. Ponto comum a todo o tipo de utilizações, era um espaço óptimo de relações humanas.

O café Girassol acabou no início da década de noventa: foi demolido e substituído por uma outra construção, onde se pretendia manter o café, com a nova valência de restaurante.

Mas o projecto foi claramente infeliz. Não se percebeu que aquilo que fazia a beleza do Girassol e que o tornava um local por excelência de convivialidade era a sua abertura ao exterior, as suas vidraças – e o que foi construído em seu lugar foi exactamente o oposto. Nasceu um edifício bisonho, fechado, com uns requebros classicistas que o tornam sisudo e pesadão, com um arremedo de esplanada para o lado da estação, mas em flagrante conflito com um lago e uma queda de água que, com um bocado de vento, salpica os circundantes. Por dentro, o edifício é claustrofóbico, e quem lá se senta, ou olha para a televisão, ou para as outras mesas: a visão ao exterior, para os Paços do Concelho, para o tribunal, para o jardim, enfim, o “ver quem passa” torna-se praticamente impossível, porque agora, em vez de largas vidraças, passou a haver janelos e postigos, frestas e paredes, a despensa e a cozinha!

O edifício que sucedeu ao excelente Girassol perdeu a funcionalidade natural de sala de estar do centro da vila. E a sua existência lá se veio arrastando penosamente, por mais vinte anos, com gerências desinteressantes e frequência minguada, toda a gente lamentando o desaparecimento do antigo edifício.

Mas se isso era mau, pelo muito que se perdia de rossio e praça de estar de Albergaria (…), pior é agora a utilização que dele estão a fazer.

Redenominado de Praça Pública, ele é hoje a negação do que deve ser um edifício de matriz pública, num local central!

As poucas janelas ou postigos que ainda tinha estão agora praticamente tapados, certamente impedindo que se veja de fora para dentro, mas também a inversa.

Depois, o seu funcionamento é desadequado à sua geratriz de local de convívio e de estar: o “bar”, ou discoteca têm por natureza uma frequência redutora e sectorial, que está nos antípodas da frequência heterogénea dos que apenas pretendem ler o jornal, falar, ou encontrar-se com alguém, ou simplesmente “estar”, no remanso dos dias que passam. Hoje, aquele já não é um local para os albergarienses, novos ou velhos, homens ou mulheres: é um local para uma franja de freguesia muito estreita, provavelmente muito nocturna.

Não se pode consentir em dar esse destino a um espaço central e municipal, que com tanto êxito e eficácia já desempenhou um excelente papel de potenciador da convivialidade dos albergarienses.

O que espanta, é que estas incidências ocorram aparentemente sem qualquer reacção ou oposição da câmara municipal, que é, digamos, a “dona” do edifício, e que assiste, impávida, à subversão da sua finalidade. É um estranho conceito de “interesse público” este, da câmara municipal, que aceita a instalação de semelhante equipamento nas suas “barbas”, pois não é crível que ignore a nova  prática comercial que vem sendo ali prosseguida.

O edifício é um bem municipal, pertence à autarquia. A sua exploração foi cedida em regime de concessão, ou pelo menos de arrendamento, a que necessariamente há-de presidir o interesse público do seu funcionamento. E não é isso que acontece.

FB 13/01/2012

AS ELEIÇÕES NA MISERICÓRDIA E JOÃO AGOSTINHO: UM AJUSTE DE CONTAS FRUSTRADO

As eleições para os corpos gerentes da Misericórdia de Albergaria decorreram ontem com uma participação record de 442 eleitores. Venceu a lista A (integrada quase totalmente pelos actuais dirigentes) com 318 votos, contra 119 votos da lista B. Os associados expressaram, com larga maioria, que os actuais dirigentes devem continuar por mais um mandato.

Rectificação da pontuação: "Todos vencedores? Não. Houve um único derrotado: João Agostinho Pereira, presidente da Câmara de Albergaria".

FB 11/11/2011

FALTAM ESPAÇOS PÚBLICOS VERDES

O tempo e os dias ainda convidam a caminhadas e passeios de bicicleta, ao fim do dia ou ao fim de semana. Mas em Albergaria não temos espaços para o fazer com prazer e em segurança. Os passeios são irregulares, as estradas são perigosas, por causa do trânsito. Não é compreensível que as terras vizinhas (Estarreja, Murtosa, Ovar, Águeda, Aveiro, Sever...) tenham ciclopistas e trilhos pedonais devidamente pavimentados, sinalizados e protegidos, e em Albergaria não exista um único percurso! Aqui, as crianças e os idosos andarem de bicicleta pelas ruas é uma aventura de desfecho imprevisível. Caminhar pelo gosto de o fazer é apanhar com os escapes dos automóveis, ou correr o risco de um atropelamento ou de um tropeção.

Os aglomerados urbanos devem ter pelo menos 9m2 de espaço público verde por habitante. Segundo esta regra, Albergaria devia ter 50.000 ou 60.000m2 de espaços públicos verdes. Mas se houver 2.000m2 já será muito.

FB 21/09/2011

Os nossos "estádios"

Vejo as obras da futura biblioteca (na praça D. Teresa) e as obras do futuro centro cultural/cine teatro Alba. Serão dois edifícios enormes, totalmente fora de escala.

Quanto se gastou nas demolições? Quanto se gastará nas construções? E no seu mobiliário e no seu equipamento? Quanto custará, um dia, a manutenção/conservação de um e de outro? E o seu funcionamento, com pessoal, electricidade, aquecimento, etc?

E com a crise que aí está, e que será ainda mais pesada nos próximos anos, com cortes nos orçamentos das autarquias – haverá dinheiro para tudo isso?...

Em 1997 e 2000 escrevi vários artigos no Jornal de Albergaria, em que defendi que o centro cultural e a biblioteca deviam ser um só edifício, exactamente o Cine-Teatro Alba: com obras de adaptação, claro.

Com a crise em que o País está, sem dinheiro para nada, estou cada vez mais convencido que esta ideia estava e está certa: um só edifício para os dois equipamentos era a solução. O dois edifícios, o seu mobiliário (e a sua manutenção) vão deixar as finanças municipais na penúria.

Ao Cine Teatro chamam-lhe “o monstro”. Do mal, o menos: o pior é se os dois edifícios, a biblioteca e o cine teatro, virão a ser para Albergaria o que os Estádios de futebol são para Aveiro, Leiria, Algarve, etc: sorvedouros de dinheiro, na construção e na manutenção.

As megalomanias saem caras. O óptimo é inimigo do bom.

FB 20/08/2011

Mário Jorge Lemos Pinto
copy+paste do facebook - FB (textos de 2011, 2012, )

terça-feira, 28 de abril de 2020

Napoleão


Albergaria está muito pobre de Memórias (mas) pensando bem há muito que falar (do) que pelos vistos caiu no esquecimento.

Eu pensei e resolvi falar no assunto. Para mim um assunto importante! Ora vamos lá a ver!!!

Eu vivi numa casa que foi construída com o nome de Bairro Napoleão (o primeiro a ser construído) e que mais tarde foi demolido para construir o Ciclo. Eu morava lá (e) não tenho vergonha nenhuma (e lá também) casei. Era e sou pobre e o Sr. Fausto já falecido deu-me uma casa que quando (o bairro) foi posto a baixo tive que deixar. Tudo bem (...) (mas ninguém) se Lembra de falar no Napoleão? Que tão bem fez aos pobres de Albergaria e continua a fazer? È triste. Vi uma fotografia tirada ao Lago (mas) porque não apanharam a estátua do Napoleão? É realmente triste.

Eu assisti à inauguração da estátua em 1966 e para ali ficou.esquecida. A Estátua foi como uma esmola a quem deu tanto por Albergaria. Enfim são apenas memórias... mas memórias que me dão pena.

Mais havia para acrescentar e ficará para mais tarde. Tudo isto são recordações de uma pessoa que trabalhou para os outros. São memórias pela alma de Napoleão. Que Deus o tenha!

Maria Silva. Facebook Memórias de Albergaria-a-Velha. 02/01/2016

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quarta-feira, 4 de março de 2020

João Alves


- Ao contrário do habitual não vamos começar esta entrevista por si diretamente, mas pelo seu avô Carlos Alves e pelas famosas luvas pretas.

O meu avô foi um grande internacional português da década de 30. Esteve nos Jogos Olímpicos de Amesterdão, onde Portugal fez o primeiro grande resultado desportivo da sua história. Na altura, só havia Jogos Olímpicos, não havia campeonatos da Europa, nem do Mundo. Foi considerado o melhor defesa do mundo nessas olimpíadas.

- E as luvas pretas começam com ele.

É verdade. O meu avô era do Carcavelinhos que na altura foi campeão nacional e ganhou até um título numa final, frente ao Benfica. O Carcavelinhos era uma das grandes equipas da época. Chamava-se Campeonato de Portugal e não Campeonato Nacional como agora.

- É nessa mítica final que o seu avô passa a jogar com as luvas pretas?

É. Antes do Benfica-Carcavelinhos, os jogadores estavam a almoçar e uma fã do meu avô, uma miúda com 13/14 anos, chegou ao pé dele, ofereceu-lhe as luvas dela e disse-lhe que se jogasse com as luvas o Carcavelinhos ia ganhar o jogo. Eram umas luvas pretas, que ainda as tenho guardadas religiosamente em minha casa. O meu avô achou piada aquilo, mas guardou as luvas no bolso do casaco e foi para o jogo. Entretanto o Carcavelinhos chegou ao intervalo a perder e os colegas que tinham assistido à cena na mesa, “obrigaram-no” a jogar com as luvas na segunda parte. Sei que o Carcavelinhos deu a volta ao jogo e foram campeões de Portugal. Tenho essa medalha. É de 1927/28 ou de 1929/30 se não estou em erro.

- A partir dali ele usou sempre as luvas, qualquer que fosse o jogo?

Sempre. A partir dali tornou-se célebre com aquelas luvas pretas. Eu fui fazendo a minha vida, sem ter ainda bem a noção do que é que aquilo representava.

- Foi ele quem o incentivou a jogar futebol?

Sim. Eu nasci em Albergaria-a-Velha, sou o mais velho de três irmãos. É uma família que veio do futebol. O meu avô era o treinador da equipa local de Albergaria. O meu pai também jogou futebol, embora sem grande sucesso. Andou sempre atrás do meu avô, enquanto solteiro, até organizar a sua vida. As origens da minha família da parte do meu pai são de Lisboa, a minha mãe é que é de Albergaria, foi lá que o meu pai conheceu a minha mãe.

- O que faziam os seus pais profissionalmente?

O meu pai era torneiro mecânico. A minha mãe era doméstica. Os meus irmãos nasceram em São João da Madeira. O meu pai foi trabalhar para a Oliva, que era uma grande fábrica de São João da Madeira. E eu fiquei com os meus avós em Albergaria, porque o meu avô era o treinador do Albergaria, que chegou a andar na II divisão.

- Foi criado pelos seus avós?

Sim. O meu avô teve uma premonição de que eu poderia vir a ser o seu sucessor, coisa que nem o meu pai, nem o meu tio conseguiram. Ele gostava muito de ter um seguidor. Fui criado pelos meus avós desde os três/quatro anos de idade. Eu nasci praticamente dentro de um campo de futebol, porque era lá a casa do treinador, oferecida pelo clube. Era um recinto muito grande com campo de futebol de 11, com campo de basquetebol, com espaços enormes, com árvores. Era um parque desportivo fabuloso que pertencia à fábrica Alba, porque o clube era da fábrica. Foi ali que eu comecei. Mal acordava, ia para a rua jogar futebol. Era bola, bola, bola, com o meu avô sempre a puxar por mim. Até que depois fui estudar para Oliveira de Azeméis.

- Depois foi para São João da Madeira.

Sim, porque entretanto o meu avô adoeceu e mudamo-nos para São João da Madeira onde já estavam os meus pais. Foi operado e foi lá que acabou por morrer, em São João da Madeira. Quando nos mudámos, ele inscreveu-me no Sanjoanense. Começo a jogar com 14 anos de idade. Na altura não havia escolas de futebol, oficialmente começava-se a jogar nos iniciados aos 14/ 15 anos. Foi esse o meu primeiro clube, antes de ir para o Benfica.

- Depois de um ano no Sanjoanense vai para o Benfica como juvenil, na época 1969/70. Como é que lá vai parar?

O Benfica tinha olheiros e havia um senhor em Albergaria-a- Velha que já me tinha visto. Entretanto, apareceu o FC Porto, interessado em mim, e levaram-me para ir treinar ao estádio das Antas. Fui convidado para ir com o meu pai, treinei e agradei. Falaram com o meu pai sobre todas as condições para jogar no FC Porto. Só que esse tal olheiro do Benfica era amigo do Fernando Cabrita, antigo treinador do Benfica, e ao saberem do interesse do FC Porto falaram com os meus pais, meteram-me no comboio e enviaram-me para Lisboa.

Tribuna Expresso / ALEXANDRA SIMÕES DE ABREU,  21/10/2017

sexta-feira, 28 de junho de 2019

USk @ Alquerubim

domingo, 6 de agosto de 2017

Alquerubim

Todos os anos venho passar umas semanas a Alquerubim perto de Albergaria a Velha. Fico numa casa centenária onde gerações de familiares da Inês viveram. Apesar da Avó Aldina já não estar entre nós a  família  esforça-se por a manter. É um verdadeiro retiro onde cada recanto é uma inspiração para desenhar.

https://urbansketchers-portugal.blogspot.com/2017/08/alquerubim.html

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Cá de cima

Este ano passei 15 dias  "perdido" em Alquerubim (Albergaria-a-Velha), sem internet nem televisão. A casa centenária onde dormi, propriedade da avó das minhas filhas, convida-nos a explorar os seus recantos. As experiências foram muitas. Foi quase um estágio introspetivo. Aqui ficam dois desenhos de pontos de vista mais altos, uma temática que me agrada bastante.

https://urbansketchers-portugal.blogspot.com/2016/08/ca-de-cima.html

sábado, 17 de dezembro de 2016

A lareira da avó

Em Alquerubim, terra dos avós da Inês, recuamos no tempo assim que entramos em casa. Uma das divisões de que gosto mais é a cozinha. As paredes guardam as memórias do cheiro a enchido  e do som da lareira.

https://urbansketchers-portugal.blogspot.com/2016/12/a-lareira-da-avo.html

António Procópio

quinta-feira, 27 de junho de 2019

O último moleiro do rio

Partiu hoje o último mestre-moleiro a exercer a sua actividade de forma tradicional no concelho de Albergaria-a-Velha. José de Almeida, da Cova do Fontão, a quem o património molinológico do nosso concelho e eu próprio devem muito.

Foi com ele que aprendi como funciona um moinho de rodízio, foi o seu entusiasmo e o seu saber que tive a sorte de poder acompanhar e documentar aquando da recuperação dos Moinhos da Freirôa no rio Caima, esteve comigo desde a primeira hora quando o desafiei a ser um dos primeiros aderentes ao projecto que apresentei para a Rota dos Moinhos de Albergaria-a-Velha, foi a sua própria história de vida uma das principais fontes de inspiração para a minha primeira obra de ficção. Ser-lhe-ei sempre grato por tudo isso e por muito mais.

Foi uma honra e um privilégio tê-lo conhecido e ele ter partilhado comigo alguns dos seus saberes e das suas memórias. O património imaterial da nossa terra fica mais pobre. Deixo aqui a minha singela homenagem a este mestre-moleiro e os meus sentimentos à sua família.

Armando Ferreira 27/06/2019


O último moleiro do rio (2017)

O livro “O último moleiro do rio” de Armando Carvalho Ferreira, é uma história sobre as gentes dos moinhos. Em cerca de 120 páginas Armando Ferreira, conta a história de "um casal de moleiros, um dos últimos que se continua a deslocar de forma sazonal ao moinho do grande rio, de forma a poderem garantir a continuação da actividade moageira durante o período estival. O seu único filho, regressa e traz consigo uma outra visão do mundo. Um confronto entre a tradição e a modernidade". O

sábado, 29 de setembro de 2018

Minha Terra

Otília Santos apresenta percurso de vida na próxima sessão Encontros com Letras

A artista Albergariense Otília Santos apresenta o seu livro Percursos (Inter)Ligados na próxima sessão Encontros com Letras na Biblioteca Municipal. O evento tem lugar no dia 29 de setembro, pelas 16h00, e antecede a inauguração da exposição Minha Terra… com obras da artista plástica.

Otília Santos nasceu em Albergaria-a-Velha e cedo descobriu a sua vocação pelas artes. Estudou no Porto, onde veio a licenciar-se em artes plásticas, pela Escola Superior de Belas Artes desta cidade, residindo desde então em Vila Nova de Gaia. Sempre procurou conciliar a atividade de artista plástica com a de professora do ensino secundário, entregando-se a ambas com toda a dedicação, tendo esta última acabado abruptamente há 17 anos por motivos de saúde.

A partir desse momento, Otília Santos dedicou-se a tempo inteiro às artes plásticas, realizando mais exposições individuais e participando em inúmeras coletivas. O livro Percursos (Inter)Ligados dá a conhecer como a artista interligou essas duas atividades, como se complementaram e surgem no momento em que se cumprem 35 anos desde a sua primeira exposição individual.

Após a apresentação do livro, a Biblioteca Municipal inaugura a mostra Minha Terra…, constituída por obras que exprimem o conceito e a intenção de retorno às origens. “Esta exposição, de carácter intimista, pretende homenagear os meus pais, antes de mais, e todos os meus antepassados que nasceram em Albergaria-a-Velha”, refere Otília Santos. Minha Terra… vai estar patente até 31 de outubro.        

CMAAV, 24/09/2018

Evento no facebook

Minha Terra...

Vestes-te com roupagem de mil cores em jeito de Rainha.

(...)

És e serás sempre minha terra, porque sou tua.

Otília Santos

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Mário Jorge Lemos Pinto

O Dr. Mário Jorge Lemos Pinto é licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (17 de Julho de 1975) e Mestre em Direito na área de Ciências Jurídico-Políticas (Opção de Direito Administrativo), pela Universidade Católica Portuguesa, em provas públicas de 9 de Março de 2007.

Foi director do Jornal de Albergaria desde a sua fundação em 1993 até 2011.

Em 2009 foi lançado em livro a sua tese de mestrado (2006) "Impugnação de Normas e Ilegalidade por Omissão no Contencioso Administrativo Português".

Obras Publicadas:

• Código das Expropriações Anotado, Livraria Almedina, 1984.
• Noções de Administração Pública, em dois volumes, destinada ao
ensino secundário, Porto Editora, 1981,1991 (em co-autoria).
• Impugnação de Normas e Ilegalidade por Omissão no Contencioso
Administrativo Português, 2009.

Dados Biográficos:

- Fiz a instrução primária em Albergaria-a-Velha, entre 1959 e 1963.
- Os sete anos do liceu foram no Colégio de Albergaria, entre 1963 e 1970.
- A licenciatura em Direito foi na Universidade de Coimbra, entre 1970 e 1975.

- Dei aulas na Secundária de Albergaria (primeiro ainda como secção da Escola Comercial e Industrial de Oliveira de Azeméis) entre 1973 e 1975.
- Entre Janeiro de 1976 e Maio de 1977 cumpri o serviço militar na Repartição do Gabinete do Chefe do Estado-Maior do Exército.
- Voltei a dar aulas, até 1980, na Secundária e no Colégio de Albergaria.
- Ao todo, leccionei História, Direito, Direito Comercial, Economia, Administração Pública, Filosofia.

- Entretanto concluí o estágio de advocacia e comecei a advogar, a partir de Junho de 1978, actividade que continuo a exercer, sempre em Albergaria.

- Entre 2003 e 2007 concluí o Mestrado em Ciências Jurídico-Políticas (Direito Administrativo) na Universidade Católica Portuguesa.
Nesse âmbito, apresentei e defendi a tese “Impugnação de Normas e Ilegalidade por Omissão no Contencioso Administrativo”, que está publicada.
- Antes, já tinha escrito e publicado outros dois trabalhos: “Noções de Administração Pública”, 1º e 2º volumes, e “Código das Expropriações. Anotado”.
- Fui membro da Assembleia Municipal de Albergaria e vereador na Câmara Municipal.

Neste percurso escolar e profissional, tenho orgulho e recordo muitos professores: na instrução primária (Lídia Vinhas Coelho; Carlos Alberto Silva e esposa, Profª Conceição), no Colégio (Eduardo Marques, Natália Pereira, Pe Moisés, Humberto Marques, Armando Marques, Edmundo Pereira - todos já falecidos - e Marina Ramos Temudo) , na Faculdade de Direito (Sebastião Cruz, Mota Pinto, Gomes Canotilho, Rogério Soares, Rui Alarcão, António Hespanha, Vital Moreira, Manuel Porto, Lucas Pires, Pereira Coelho, Teixeira Ribeiro, Avelãs Nunes…), no Mestrado (Mário Aroso de Almeida, Manuel Afonso Vaz, Brandão Proença).

Recordo o meu patrono, na advocacia, Manuel Homem Ferreira, que me ensinou muita coisa importante na vida.

Recordo Alberto Soares Pereira, subdirector da Secção de Albergaria da Escola Comercial e Industrial de Oliveira de Azeméis, que em 1973 (tinha eu 20 anos) foi o meu primeiro “chefe” e me confiou a responsabilidade de ensinar várias turmas.

Recordo o presidente da Câmara Municipal de Albergaria-a-Velha, José Nunes Alves, que confiou nas minhas capacidades, como advogado da Câmara, sendo eu ainda um jovem estagiário.

https://www.facebook.com/mariojorge.lemospinto


Albergaria-a-Velha: Vogal da Assembleia renuncia por causa de incompatibilidades

Mário Jorge Lemos Pinto, influente vogal da Assembleia Municipal (AM) de Albergaria-a-Velha renunciou ao cargo a meio do mandato, alegando «motivos profissionais». Antevê incompatibilidades no exercício da advocacia. Um caso raro nos orgãos autárquicas.

Na carta de renúncia enviada ao presidente da mesa, o ex-deputado municipal informa que decidiu interromper a participação activa no orgão fiscalizador do executivo camarário.

Os motivos prendem-se com razões de ordem profissional. Mário Jorge Lemos Pinto, advogado, entende que ao manter-se no cargo de vogal poderia incorrer, nos tempos mais próximos, em várias «incompatibilidades».

Por outro lado, quis evitar que futuramente lhe apontassem o dedo em tomadas de decisão nas quais eventualmente tivesse intervenção enquanto causídico.

«A lei não obriga mas achei por bem renunciar», explicou o também director do semanário Jornal de Albergaria.

Lemos Pinto, uma das vozes mais credíveis da oposição local dá como exemplo de incompatibilidades negociações entre a autarquia e particulares para acertar contrapartidas e indemnizações. Ao aparecer como conselheiro jurídico do particular, na AM teria de defender os interesses do município. Antevendo «conflitos sérios», o advogado preferiu renunciar.

Noticias de Aveiro, 21/10/1998

sábado, 5 de março de 2016

Cacos da Memória



Toninho tinha apenas seis meses quando seus pais, imigrantes portugueses no Rio de Janeiro, resolveram voltar à terra natal. Sua infância, portanto, passou-a numa aldeia portuguesa – Minas do Palhal – na qual a família viveu por onze anos antes de retornar definitivamente ao Brasil em 1957.
As lembranças desse tempo é que compõem esses deliciosos Cacos da memória que, como o nome sugere, reconstituem fragmentos de episódios vividos, recuperados ao capricho da memória e dependentes, muitas vezes, da “cola da imaginação” para restaurá-los ou “preencher lacunas”, ainda que a essência dos fatos permaneça inalterada.

O processo de resgate de sua infância é deflagrado [...] com a visão de uma menina com seu guarda-chuva e seus sapatos de verniz (“estalando de novos”) e seu ar de quem tem perfeita ciência de sua elegância. Esses sapatos levam o João Antônio ao Toninho e ao seu desejo de possuir sapatos de homem, não mais sandálias de menino.

Comprados para serem usados em sua 1ª comunhão, os “sapatos de verniz, reluzentes”, conferiram ao menino a importância que, anos mais tarde, ele irá identificar na menina do guarda-chuva: “Tive a impressão que todos admiravam os meus sapatos de verniz!”

O que Toninho não sabia “é que sapatos novos costumam magoar os pés” e o caminho de ida e de volta à missa foram o bastante para que ele voltasse mancando... Pronto: os cacos começam a se juntar! O leitor é levado, assim, a acompanhar artes e invenções do Toninho numa linguagem bem humorada em que não são raros trechos poéticos e belas metáforas, bem como o uso de expressões próprias do português de Portugal, devidamente “traduzidas” para o “brasileiro” ao fim de cada fragmento narrado.

Personagens, animais e festas da aldeia, a dor causada pela palmatória, a fartura – que “era a ausência da falta” – as vindimas, as “histórias ao pé do lume”, muitas delas envolvendo bruxas e lobisomens... as experiências de Toninho tornam-se as experiências do leitor, tal a leveza de seu texto, sua naturalidade e o verdadeiro encanto que despertam suas memórias.

Pelo que acima vai dito, fica evidente o quanto a obra me agradou e o quanto desejo sabe-la lida e amada por mais pessoas, especialmente nas escolas que hoje reúnem meninos tão cheios de brinquedos e tão vazios deles, tão necessitados, sem saberem, de – à falta de experiências ricas como as de Toninho – ao menos viverem, pela literatura, o que a vida já não lhes oferece viver.

Jussara Neves

http://www.jussaraneves.com.br/2013/05/cacos-da-memoria-de-joao-antonio.html

Filho de imigrantes, nasci no Rio de Janeiro em 12-09-46. Passei a infância numa aldeia portuguesa - Minas do Palhal - onde a família tentou radicar-se. Retornei ao Brasil em 1957. Sobre esse período escrevi um livro (Cacos da Memória, Edição do Autor, 2008), minha primeira experiência literária. Em 1965 ingressei na Aeronáutica, onde exerci a função de desenhista, dando baixa em 1995 como 1º tenente. Licenciado em Pedagogia e Educação artística, nunca exerci atividades pertinentes, mas gosto muito de artes plásticas, arquitetura, artesanato, cinema e leitura. Minha principal ocupação atual é esperar o dia do pagamento. Para que o tempo não me incomode demasiado, escrevo alguma coisa; não sei nem gosto de jogar cartas na praça... Sou casado, tenho dois filhos e fui adotado como avô. Não tenho guarda-chuva nem celular. Guarda-chuva, perdi todos que comprei ao longo da vida; desisti de perder mais um. De celular não preciso.

Joao Antonio Ventura

https://www.blogger.com/profile/00321521272177246479
http://votonico.blogspot.pt/

Jussara, acabo de chegar do aniversário da Yasmin Júlia (9 anos),outra menina que me inspira e que me adotou como avô, e ainda estou sob o impacto do que li no seu texto, portanto não sei bem o que dizer-lhe em agradecimento, só isto: amei tudo que disse!

Foi muito mais do que poderia esperar. Contudo, em se tratando de você, com o preparo que tem e completa ausência de outros interesses, nem a mínima obrigação de agradar-me - não duvido, acredito em tudo que disse. Ainda vamos falar mais de "Cacos", mas por ora quero dizer-lhe que o primeiro impacto foi com a primeira ilustração com os moinhos da Freirôa (que não cheguei a conhecer), onde reconheci de imediato o rio Caima, sem ter lido ainda a legenda. Hoje bastante desfigurado, aquele rio da ilustração é o Caima da minha infância, aquele que está na minha memória - é o "rio que passa pela minha aldeia". Uma das coisas que gosto muito no seu blog é o cuidado primoroso com que trata as ilustrações dos seus textos e todo visual do Minas de Mim. Agora vou dormir, Jussara, um grande abraço.

Joao Antonio Ventura, 26 de maio de 2013, 00:25

Ah, mais uma observação: aquela igrejinha da ilustração é a tal aonde fui assistir missa só para mostrar os meus lindos sapatos de verniz. Agora está restaurada e serve de morgue para o cemitério ao lado. Naquela ocasião havia sido destruída internamente por um incêndio, mas eu não registrei o fato na minha memória - só tinha olhos para os meus sapatos de verniz. Sobre isso escrevi um post no
Vô Tônico: "Um caco esquecido".

Joao Antonio Ventura, 26 de maio de 2013, 20:13

Foi através da minha amiga Dra. Nélia Oliveira e companheira de escrita a duas mãos no estudo monográfico "Ribeira de Fráguas - a sua história", 2010, que conheci o livro "Cacos da Memória", como profundo conhecedor da historiografia local, fiquei fascinado com a assertividade que o meu amigo João António Ventura colocou no seu livro, que, ele, teve a amabilidade de me enviar um exemplar para Portugal. Muitos dos locais mencionados na referida obra literária, ainda estão tal como ele os viu pela última vez. O rigor sociológico, diria, etnográfico, estampado neste livro é deveras incomum, particularmente para quem nunca mais visitou a aldeia na qual passou parte da sua mocidade e que, nota-se na fluidez da leitura, o marcou de forma indelével. Abraço, João.

Nuno Jesus, 28 de maio de 2013, 11:08

O LIVRO

Escrevi Cacos da memória entre 2006 e 2008, a partir de um evento ocorrido na cidade de Cunha – SP, que abre o livro sob o título de “A menina do guarda-chuva e os meus sapatos de verniz”, por ocasião de visita a um amigo de longa data, mas de há muito desgarrado da minha vida.

Ao escrevê-lo descobri que gostava de escrever; e o que era para ser meia dúzia de pequenas histórias virou um livro com mais de cem fragmentos da memória; e no conjunto uma crônica da minha família naquele período de dez anos.

E também descobri, ou redescobri, a aldeia da minha infância, longe no espaço e no tempo e quase apagada da minha memória. Visitei seus lugares (os meus lugares), seus habitantes e suas histórias. E aquela aldeia – Minas do Palhal – renasceu em mim.

Pude notar, enquanto escrevia e, principalmente, ao fim da tarefa, uma aproximação afetiva com o lugar e seus habitantes. A aldeia, que nos primeiros textos eu designei por “um lugar como aquele”, ao meio do livro designava por seu próprio nome e ao fim já era a “minha aldeia”.

Um amigo virtual português, Nuno Jesus, ao ler “Cacos da memória” derramou-se em elogios. Não compreendi bem o seu entusiasmo.

Nuno é diletante e pesquisador da etnografia daquela região em que se insere a minha aldeia; e autor, juntamente com a historiadora Nélia Oliveira, do livro “Ribeira de Fráguas – sua história”. Nuno enviou-me o ficheiro com a diagramação de outro livro seu, este em coautoria com Emília Campos e Vera Marques: “Telhadela – perspectiva histórica e etnográfica”. Ao ler o trabalho, lindamente ilustrado com fotografias de época, compreendi o entusiasmo de Nuno com o meu livro e também o significado da palavra etnografia, desconhecido para mim àquela altura. É que de certa maneira eu também fiz etnografia em Cacos da memória - sem o saber, porém, e portanto sem o compromisso e o rigor da ciência. Fiz etnografia contando histórias. Talvez por isso agradável de ler, segundo depoimentos vários.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Acção Católica Rural (antiga JAC e LAC)

Nome: Dália Rosa Faria Nunes
Nascida: 17 de fevereiro de 1942
Diocese: Aveiro

Fui militante da JACF/JARC de 1961 a 1970, tendo interrompido até 1980, altura em que recomecei na ACR, até hoje

MR: Como conheceu a Acção Católica Rural (antiga JAC e LAC)?
DN: Em 1961 fui convidada por militantes da Seção da minha paróquia (Branca) para frequentar as reuniões e, passado muito pouco tempo, participei ativamente na encenação e dinamização de uma atividade do Movimento. Gostei e continuei.

MR: Qual a motivação para se tornar militante da ACR?
DN: Naquela altura dizíamos que os militantes precisavam de ser «pescados à linha», e foi isso que fizeram comigo. Vi-me quase desde o início responsabilizada em atividades e em ações de formação, e penso que foi o sentir que acreditavam em mim, o que me motivou a continuar. A esta distância, penso que a maior motivação foi o dizerem-me «tu vais fazer porque és capaz».

MR: Que percurso fez dentro da Ação Católica?
DN: Nessa altura fazia-se um “aspirantado”, penso que com a duração de dois anos. Eu saltei essa etapa, embora tenha feito “exame”, para passar a militante. Fui convidada para a equipa diocesana logo a seguir, onde fui responsável das pré-jovens e do Ultramar, e passados dois ou três anos, fui eleita presidente diocesana.
Na ACR, fui dirigente diocesana, onde ocupei o cargo de tesoureira e presidente. No plano nacional assumi vários cargos: secretária, vogal de expansão, vogal de formação, representante na FIMARC, e presidente e vice-presidente. Pertenci também a Junta Diocesana da Acção Católica. Atualmente sou dirigente de base e diocesana.

MR: Como carateriza a Ação Católica da época em que ingressou no Movimento?
DN: A Ação Católica da época era o Movimento da Igreja por excelência, e quase todas as paróquias a tinham organizada. Era disciplina ensinada nos Seminários, e a Hierarquia tinha nela os seus braços para a ação, embora os leigos “tivessem” de dar contas à Hierarquia. Contudo, a análise dos acontecimentos da sociedade civil permitiu aos militantes adquirirem uma consciência nova da sua responsabilidade, quer como cidadãos, quer como cristãos. Era para os seus elementos uma escola de formação integral e espaço de crescimento na fé. Muitos militantes da JAC/F devem a sua valorização pessoal ao Movimento.

MR: Quais os maiores marcos da história do Movimento?
DN: Como jovem, vivi o Grande Encontro (“Os novos escolhem Deus”), que se realizou em Lisboa, em 1963; o encontro europeu de jovens rurais em Stuttgart, em 1965; e várias concentrações, todas precedidas de uma longa preparação de todos os participantes.
Como adulta, logo a seguir ao 25 de abril, envolvi-me com outros militantes no esclarecimento dos cristãos da diocese acerca dos programas partidários, vistos à luz da Doutrina da Igreja; no esclarecimento dos rurais sobre as consequências da nossa entrada na Comunidade Europeia; na Assembleia Mundial da FIMARC, realizada na Casa Diocesana de Albergaria-a-Velha (foi um trabalho exigentíssimo, pois recebemos participantes de todos os continentes, que estiveram cá 15 dias); as várias Jornadas Sociais, sendo duas realizadas em Aveiro, mas tive participação ativa em todas; as diversas campanhas, principalmente as «A Aldeia que eu quero no Portugal europeu», que nos abriu para as realidades europeias e deu uma nova forma de abertura do Movimento ao meio, e a campanha «O homem primeiro»; e ainda Seminários que proporcionaram aos militantes da ACR a possibilidade de escutarem pessoas das mais diferentes áreas da sociedade civil e religiosa.
Os cadernos de militantes e as revistas «Girassol», «Fé e Trabalho», «Diálogo» e «Mundo Rural», embora não sendo marcos, foram meios usados para a formação contínua dos seus elementos.

MR: Como vê a receção do Concílio Vaticano II dentro do Movimento? Deram-se grandes alterações?
DN: Uma das maiores virtudes da Acção Católica foi ajudar os militantes a intervirem, estarem atentos aos acontecimentos e consciencializarem-se dos seus deveres como cristãos e cidadãos.
Quer na JACF/JARC, quer na ACR, os documentos conciliares sobre a missão dos leigos no mundo, foram tema de reflexão e de muitas ações de formação. O início das reuniões, quer de base, quer diocesanas, quer nacionais, tinham sempre um largo tempo de discussão sobre estes temas. O mesmo no que se refere às diversas Encíclicas e Cartas Pastorais, que foram publicadas ao longo dos anos. A minha consciência de leiga (penso que responsável) vem toda daí.
Espero que com as comemorações dos 50 anos do Concílio e com a celebração do Ano da Fé, muitos destes documentos voltem a ser objeto de estudo e reflexão.

MR: O Movimento teve a preocupação de acompanhar o que ia acontecendo aquando da saída dos documentos conciliares?
DN: Pelo que disse atrás, confirmo que sim. O Movimento foi uma grande escola de formação eclesial e cívica.

MR: Como carateriza a Acção Católica dos anos seguintes (após o Concílio)?
DN: Apesar da Acção Católica ter vivido e concretizado no seu trabalho militante a doutrina conciliar, as alterações politicas, o fim da sua estrutura organizativa e  o aparecimento  de novos  movimentos e novas formas de apostolado,  com um  cariz menos interventivo  e menos  “exigente” e muitas vezes  “mais  macio”,  não  obrigando tanto  a “pôr as mãos na massa” e ainda  um novo posicionamento da Hierarquia,  levou a um enfraquecimento  progressivo da Acção Católica.

MR: E hoje, como vê a Acção Católica Rural enquanto recetora da mensagem do Concílio?
DN: Tenho consciência clara que a ACR tem de estar no mundo, com outro tipo de abordagem, mas nunca com menos exigência e menos consciência do papel dos seus militantes dentro da Igreja e do meio. E esta consciência terá de ser de novo adquirida, estudando e debatendo a doutrina conciliar e aplicando-a à vida, utilizando o seu método de trabalho, a Revisão de Vida.

MR: Qual pensa ser o papel da ACR nos dias de hoje?
            DN: Olhando para as nossas paróquias, sinto uma certa frustração e um desencanto. Dá-me a sensação que regredimos e que às vezes não somos capazes de arregaçar as mangas e nos sentirmos comprometidos e intervenientes na vida dos homens e mulheres que connosco partilham os acontecimentos. O mundo está diferente e as solicitações são muitas, mas não nos podemos demitir da missão que nos foi confiada.
Vivemos a nível de país um momento doloroso mas interpelante, e a Igreja (bispos, padres e leigos) tem de saber qual o seu papel no meio de tudo isto. A ACR é por natureza um movimento vocacionado para a intervenção evangélica, e tem de continuar a lutar por aquilo em que acredita.
Continuo a pensar que a Acção Católica ainda não tem substituto, e tenho a perceção de que em alguns setores da Igreja se começa a reconhecer que o lugar da Acção Católica não está ocupado.

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Nome: Flausino Pereira da Silva
Nascido: 27 de agosto de 1938
Diocese: Aveiro
Militante da ACR desde: 1984 (64 anos de Militante, contando o tempo de Pré-Jacista)
Militante Pré-Jac desde 1948, depois da JAC e ACR, até hoje!

Como conheceu a Acção Católica Rural (antiga JAC e LAC)?
Através da JAC da minha Paróquia (Branca, diocese de Aveiro).

Qual a motivação para se tornar militante da ACR?
A atração pela formação nas reuniões e a possibilidade de conhecer pessoas, conviver e assumir responsabilidades          

Que percurso fez dentro da Acção Católica?
Iniciei como Pré-Jacista em 1948, passei a militante de base da JAC, depois a dirigente e, em 1956, fui chamado a fazer parte da equipa diocesana. Em 1960 fui convidado para a equipa nacional, onde permaneci até este Movimento se incorporar na ACR. Depois interrompi e regressei como dirigente diocesano e nacional, após as primeiras jornadas sociais de 1984.

Como carateriza a Acção Católica da época em que ingressou no Movimento?
Nos anos quarenta e cinquenta a Acção Católica tinha um enorme peso na Igreja, por ser praticamente o único Movimento Apostólico de intervenção social. A Hierarquia dava grande importância ao papel do Movimento e tinha muita consideração pelos seus membros.

Quais os maiores marcos da história do Movimento?
Para mim, os maiores marcos foram: o Congresso Mundial da JAC-JACF, em Lourdes, em 1960; o Grande Encontro da Juventude em 1962; a Comemoração dos 25, 50 e 75 anos da Acção Católica; as Jornadas Sociais da ACR; as Campanhas, das quais destaco "A Aldeia que eu Quero no Portugal Europeu", com a constituição de cerca de mil grupos de análise reflexão e acção (GARA), que culminou na Festa das Jornadas e no desfile festivo, realizados em Aveiro; os Seminários Nacionais, iniciados em 1988, no seguimento desta campanha, e que prosseguem anualmente até hoje.

Como vê a receção do Concílio Vaticano II dentro do Movimento? Deram-se grandes alterações?
Se houve Movimento que acolheu e traduziu na sua ação apostólica as deliberações do Concilio Vaticano II, foi a Acção Católica, particularmente a ACR que, com as Jornadas Sociais assumiu corajosamente o seu papel de «Sal da Terra e Luz do Mundo».

O Movimento teve a preocupação de acompanhar o que ia acontecendo aquando da saída dos documentos conciliares?
A Acção Católica e a ACR, em particular, deram sempre muito relevo na formação dos militantes: à Doutrina Social da Igreja, às Constituições que saíram do Concílio, bem como a Exortação que se lhe seguiu. Foram objecto de estudo, nos cadernos do militante e nas acções de formação desenvolvidas

Como carateriza a Acção Católica dos anos seguintes (após o Concílio)?
O Concílio deu uma nova força à Acção Católica, que se libertou, progressivamente, da conceção de "manus longa" da Hierarquia, para assumir a sua identidade de Movimento Laical, evangelizando as pessoas e estando presente nas realidades temporais, para as transformar.

E hoje, como vê a Acção Católica Rural enquanto recetora da mensagem do Concílio?
Mau grado a ACR ter recebido e traduzido na sua militância e ação a doutrina do Vaticano II, a própria Hierarquia e a Igreja não a traduziram na Acção Eclesial. Surgiram novas formas de apostolado e movimentos de cariz mais espiritualista, e menos intervencionista.
Com a evolução social e política e o desenvolvimento associativo, de par com a democratização da vida social, cultural, económica e até eclesial, os Movimentos da Acção Católica perderam expressão e tornaram-se "difíceis" para os cristãos e para a própria Hierarquia.
É indiscutível, contudo, que a acção evangelizadora e a formação dos militantes da ACR, hoje em dia, traduzem amplamente o espírito e a doutrina do Concílio Vaticano II

Qual pensa ser o papel da ACR nos dias de hoje?
A ACR tem de se manter fiel à sua vocação e missão de Movimento de Leigos no mundo, porque essa é a sua essência.
Mas o nosso mundo muda/mudou muito depressa e as pessoas estão demasiado cheias de si, de coisas materiais e culturais, e de ideias que o mundo lhes incute e, por isso, menos disponíveis para Movimentos "difíceis" como o é a ACR.
Adaptando a formação e a ação ao modo eclesial e social de hoje, o Movimento continua a ser e é, na atualidade, fundamental, como o foi no passado, para a Nova Evangelização das pessoas e dos ambientes

http://mundo-rural.webnode.pt/entrevistas/
http://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/14549/1/Disserta%C3%A7%C3%A3o_Joana%20Veigas_MIT_2014.pdf

Histórias de Acção Católica

Relatos de um compromisso na primeira pessoa em destaque na Ecclesia Rádio

A ECCLESIA Rádio vem apresentando histórias de envolvimento e dedicação nas dinâmicas dos Movimentos da Acção Católica, que comemora 75 anos de vida no nosso país, tempo em que, como lembrou a Conferência Epsicopal Portuguesa, ajudaram a formar muitos leigos “que tiveram um papel assinalável nos mais diversos sectores da sociedade portuguesa, desde a política à economia, do ensino, às profissões liberais mais significativas”.


Para o Pe. Querubim Silva, assistente espiritual da Acção Católica Rural (ACR), admite que a metodologia do “Ver, Julgar, Agir” marca o seu quotidiano e afirma que o movimento “não é residual”.
“Estamos presentes, e com vida, em 14 dioceses”, assegura, destacando a importância da ACR para a “preservação de valores do meio rural” como a vizinhança ou a solidariedade.

(...)
Dália Nunes, também ela membro da direcção da ACR, chegou à Acção Católica por causa do sonho de ser “locutora”, acompanhando assim uma celebração de consagração de jovens. Das suas memórias destaca a primeira participação num encontro europeu, em 1965, “tudo o que aconteceu na viagem, de comboio” ou o dormir “em tendas com água lá dentro e lama nos pés”.

Desde 1961, Dália Nunes sente que a Acção Católica “faz parte da vida” e aplica a sua metodologia às situações que lhe surgem na vida profissional.
(...)

O ciclo de programas conclui-se esta Sexta-feira com o testemunho de Flausino Silva, da ACR, numa emissão que se inicia pelas 22h45, na Antena 1.

AE 13/11/2009
http://www.agencia.ecclesia.pt/noticias/nacional/historias-de-accao-catolica/

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Descobrir Manuel Guimarães

Visita guiada à exposição "Descobrir Manuel Guimarães", Cineteatro Alba, 2015

Nasceu em 1915 em Valmaior, onde viveu até aos 3 anos de idade. Seu pai era
sócio-gerente da Fábrica de Papel do Prado, lugar que abandonaria por volta de
1918 para se dedicar á indústria de hotelaria. É assim que vai para o Porto,
passando a viver na Pensão dos Aliados, administrada por seu pai.

Breve História do Cinema Português 1896-1962, Alves Costa