quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Entrevista a Rui Marques

Rui Marques / Beira Vouga
Eleitorado pregou-me uma partida

Rui Marques diz nunca ter pensado em ser político na sua vida. O facto de vir a ser médico era algo que já vinha dos desejos da juventude, mas a política, confessa, foi algo de imprevisível e de duração inesperada.

Tive que decidir cedo (talvez cedo demais) o tipo de vida que ia abraçar. Com 16 anos terminei o 7º ano. que era na altura o equivalente ao actual 11º ano. Como não havia o 12º tive que decidir qual a área de actividade que ia abraçar e fiquei na indecisão entre a engenharia e a medicina, optando pela segunda. Com 16 anos matriculei-me na Faculdade de Medicina de Coimbra, mas admito que foi muito cedo, ninguém está suficientemente maduro nessa idade para tomar uma decisão como esta, que é das mais importantes da nossa vida.

Rui Marques acabou o curso e quatro anos depois regressou a Albergaria-a-Velha, onde nasceu e foi criado, passando a exercer medicina perto da família e das suas raízes.

A escolha que julguei prematura acabou por ser acertada. Não estou arrependido. A medicina é uma actividade com uma componente humana muito forte. Identifico-me muito com esta actividade e pelos vistos parece que tenho um certo jeito para aquilo também [sorrisos]. Se fosse hoje voltava a fazer exactamente o mesmo.

Depois veio a política.

Na política, normalmente, quando o partido quer um bom resultado procura pessoas na sociedade, que na sua actividade pofissional estejam a desenvolver uma actividade com algum mérito, ou seja, pessoas que se estão a sair bem. Eu penso que estava a sair bem na medicina e houve um partido que resolveu tirar-me do meu descanso [sorrido]. Inicialmente disse que não, que não veria de forma alguma a minha participação na política.

Estávamos em 1985 e Rui Marques foi abordado para ser o candidato do CDS à Câmara de Albergaria-a-Velha. Depois de muitos “nãos" e partindo do pressuposto de que seria difícil o CDS ganhar a Câmara ao PSD, o jovem médico lá aceitou o repto.

Aceitei candidatar-me na perspectiva de poder ajudar numa reunião camarária de 15 em 15 dias, ou seja, eu continuava a fazer a medicina e pelo meio ia a duas reuniões de Câmara por mês. Era a forma de prestar o menu tributo ao concelho, até porque tinha 32 anos, naquela altura. Mas o eleitorado pregou-me uma partida e ganhei a Câmara por poucos votos, por uma unha negra.

“Nunca pensei ser presidente da Câmara”

A medicina começou a perder terreno para a política na vida do entrevistado, que apesar da inesperada vitória assumiu a cadeira do presidente e só a largou 16 anos depois.

Como em tudo na vida gosto de assumir as minhas responsabilidades e abracei a Câmara, o que veio a ser um abraço muito longo, de 16 anos.A medicina ficou para trás, é óbvio, eu não conseguia fazer duas coisas de responsabilidade ao mesmo tempo. Agora é certo, nunca pensei ser presidente da Câmara e nunca pensei, muito menos, estar lá 16 anos.

Rui Marques acredita que o CDS, como partido democrata cristão, era aquele em que se revia na altura, bem como actualmente, com destaque para a componente humanista do mesmo.

Isso tudo tem a ver também com a minha actividade de médico. Acreditava e acredito em muitos dos princípios do CDS, entre os quais a valorização da pessoas humana... embora haja questões que não concordo tanto, é exactamente o que sinto em relação a qualquer outro partido, há coisas boas e más e eu pugno por manter a minha maneira própria de pensar.

Depois de 16 anos de poder, Rui Marques viu escapar a presidência da Câmara para o PSD e para João Agostinho. Apesar das escassas dezenas de votos, o certo é que se pôs termo a um ciclo de quatro mandatos. Será que desgaste político foi a principal razão?

Acredito quem foi um ciclo que terminou. Eu já podia ter perdido as eleições no mandato anterior ou até podia ter voltado a ganhar Há fenómenos e veja, o CDS é um partido que normalmente não ganha eleições aqui (ganhei eu) mas mesmo assim, nas eleições que perdi, em oito freguesias ganhei em seis. Se utilizássemos aqui o sistema americano eu ganhava seis a dois [risos] e acabei por perder por 50 ou 60 votos. Como a votação foi muito expressiva nas duas freguesias onde perdi, ficou assim ditado o resultado, sendo que uma delas é a freguesia do actual presidente.
Agora, aceitei bem aquilo que o eleitorado escolheu e aceito também que tenha sido um desgaste, isto da política cansa... sãos fenómenos de desgaste natural.

"Os 16 anos de ouro de Albergaria"

Olhando para trás, neste percurso de 16 anos. Rui Marques disse ter feito bastante obra, lamenta ter deixado coisas por fazer mas diz ter saído tranquilo e "sem pedras no sapato'.

Deixei muita obra. Penso que foram os 16 anos de ouro de Albergaria. Não há memória na história de Albergaria de tanto empreendimento, de tanta realização de obra, de tanto trabalho. Agora, deixei muitos projectos em curso que naturalmente gostaria de acabar Assim, não deixa de ficar o meu nome ligado ao nível dos projectos, lançamento das obras e da decisão de construção de determinados empreendimentos. Gostaria e espero que o actual presidente, João Agostinho, faça em oito anos metade do que fiz em 16.

Rui Marques, depois destes quatro mandatos voltou à política local exactamente como queria ter começado, ou seja, participar em reuniões de Câmara de 15 em 15 dias.

Lá está [risos]. É uma actividade lúdica neste momento. Vou lá falar de vez em quando mas é de forma lúdica. Ninguém me vê lá com grandes berros, grandes confusões. Agora, estou a falar de uma actividade lúdica mas com responsabilidade.Sem presunção da minha parte, tenho uma postura construtiva e responsável e gostava que me vissem como uma espécie de "senador", uma pessoa que tem experiência e que Albergaria não deve desperdiçar figuras assim.

Sem enveredar por uma postura crítica contra o actual presidente da Câmara, facto que Rui Marques diz ter dificuldade de o fazer publicamente, o ex-presidente de Câmara diz que apenas teve que dizer, pontualmente, algumas coisas.

Não tenho hábito de estar a criticar porque sou sempre alvo de suspeição por ter passado pela Câmara. As críticas faço-as no local certo. É certo que há coisas que não me agradam, há coisas que eu não faria da maneira que foram feitas e acho que há coisas que se fizeram que não se deveriam ter feito. Mas essas críticas estão exaradas em acta, pois é assim que o faço.

Entrevista ao jornal Beira-Vouga, 30/08/2007

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